Esportes

Em sua oitava Olimpíada seguida, Hugo Hoyama define Tóquio como “Jogos da superação mental”

Para o treinador da seleção feminina de tênis de mesa a lista de protocolos sanitários e de restrições em função da pandemia impõe a todos um preparo adicional para que a performance esportiva tenha a qualidade almejada.

Protocolos sanitários, distanciamento, rastreamento, testagens, quarentena, restrições, restrições e restrições. Não há conversa com atletas, técnicos ou dirigentes nos Jogos Olímpicos de Tóquio sem que, entre uma pergunta e outra, alguma dessas expressões surja de forma tão enfática quanto preparação, performance, perspectivas esportivas e principais adversários na busca por medalhas. A opção por realizar o megaevento em 2021 implicou dezenas de medidas para receber mais 10 mil atletas de cerca de 200 países em 17 dias de competição em meio aos efeitos da pandemia do novo coronavírus.

“Claro que a gente vem para cá com o objetivo e o foco maior em jogar bem, mas hoje, por exemplo, seria um dia de folga, em que a gente poderia refrescar a cabeça, fazer compras, dar uma passeada, interagir, mas temos de ficar dentro do hotel. Todos entendem, cumprem e sabem que é para a segurança de todos, mas, claro, é único, diferente de tudo”, afirmou Hoyama, em entrevista exclusiva ao rededoesporte.gov.br  realizada de forma virtual.

“Claro que a gente vem para cá com o objetivo e o foco maior em jogar bem, mas hoje, por exemplo, seria um dia de folga, em que a gente poderia refrescar a cabeça, fazer compras, dar uma passeada, interagir, mas temos de ficar dentro do hotel. Todos entendem, cumprem e sabem que é para a segurança de todos, mas, claro, é único, diferente de tudo”

Hugo Hoyama, técnico da seleção feminina de tênis de mesa

A própria entrada na capital japonesa é um labirinto burocrático. Envolve centenas de funcionários e voluntários do comitê organizador e do governo do Japão e ilustra a perspectiva de Hoyama. Cada viajante precisa chegar com a comprovação de dois testes de PCR negativos recentes e faz um teste de saliva no aeroporto. A pessoa só deixa o terminal quando mais esse resultado negativo é confirmado. A maioria dos integrantes da família olímpica entra em quarentena de três dias e é testado regularmente.

É preciso, ainda, baixar um aplicativo que se propõe a rastrear contatos próximos em caso de haver resultados positivos em sua rede de interações. Jornalistas não podem usar transporte público nem andar livremente nas ruas nos primeiros 14 dias. Há um funcionário na entrada de hotéis oficiais com uma lista na mão e o relógio na outra. Ele registra cada saída dos profissionais para comprar suprimentos. Em cada vez, a pessoa tem 15 minutos para ir e voltar e a indicação de evitar a aproximação com a população japonesa.   

Rastrear e isolar

Mesmo diante desse cenário, já há pelo menos 55 resultados positivos registrados em funcionários, profissionais de apoio da engrenagem produtiva dos Jogos e até em um atleta instalado na Vila Olímpica, de acordo com o comitê organizador. Os casos positivos entram em quarentena, são isolados e monitorados.

“Eles estão muito preocupados com a nossa saúde e a do povo japonês. No nosso caso, temos até um elevador separado no hotel”, explicou Hoyama, que faz a aclimatação com a delegação nacional do tênis de mesa em Hamamatsu, cidade 250 quilômetros ao sul de Tóquio. Todos os atletas e integrantes da comissão técnica da modalidade chegaram vacinados. “Isso, claro, nos traz certa tranquilidade, mas não dá para descuidar e ficar solto por aí. Tiramos a máscara basicamente para treinar e comer”, disse o atleta.

“No início da pandemia não conseguíamos treinar direito, não dava para sair de casa, mas isso foi para quase todos. Por isso, a parte mental é importante. O atleta que chegar aqui e pensar que a preparação foi difícil, que faltou alguma coisa, dificilmente vai ter resultados. A postura é: foi difícil, exigiu adaptações, mas lutei para estar aqui e vou entregar o melhor”

Mental em alta

A perspectiva da preservação está em cada declaração dos atletas, em especial entre os estreantes, ansiosos pela experiência olímpica. “Quando viajo sempre penso em dar uma volta, ficar mais perto da cultura, mas ao mesmo tempo entendo perfeitamente a situação aqui. Os protocolos são realmente necessários para todos”, disse Jessica Yamada, uma das sete atletas do grupo de oito no tênis de mesa que tem ascendência japonesa.

O zelo é ainda mais essencial porque eles sabem que um teste positivo nessa reta final significaria, além dos cuidados médicos, uma quarentena obrigatória e a provável perda da competição. “Só o fato de haver Olimpíada já é importante demais para mim. Representa alegria, conquista, realização de um sonho. Se para que isso ocorra é necessário todo esse protocolo, vou seguir e para mim é tranquilo”, disse Vitor Ishiy.

Segundo Hoyama, a combinação de fatores que fez com que os Jogos de Tóquio sejam realizados nessa conjuntura exige a ligação de uma espécie de disjuntor interno nos atletas, uma postura assertiva. “Essa vai ser a Olimpíada da superação mental. No início da pandemia não conseguíamos treinar direito, não dava para sair de casa. Batia bola de forma improvisada quem conseguia, mas todos esperando o retorno aos treinos formais e às competições”, disse.

“Mas isso foi para todos. Por isso, a parte mental é me parece muito importante. O atleta que chegar aqui e pensar que a preparação foi difícil, que não conseguiu treinar direito, que faltou alguma coisa, dificilmente vai ter resultados. A postura é: ‘foi difícil, exigiu adaptações, mas lutei para estar aqui e vou entregar o melhor. Vou deixar meu jogo fluir’. Superação é a palavra para uma chance maior de resultado. E o brasileiro tem isso”.

Tome nota!

Em Tóquio, o Brasil será representado por Hugo Calderano, Gustavo Tsuboi e Vitor Ishiy no tênis de mesa masculino. O feminino conta com Bruna Takahashi, Caroline Kumahara e Jessica Yamada. O Brasil estará nas disputas individuais e por equipes. Nas duplas mistas, a vaga não foi conquistada. As competições serão de 24 de julho a 6 de agosto, no Ginásio Metropolitano de Tóquio.

O tênis de mesa faz parte do programa olímpico desde a edição de 1988, em Seoul, na Coreia do Sul. Desde lá, 28 das 32 medalhas de ouro foram conquistadas por apenas um país: a China. Lá, o tênis de mesa tem caráter de esporte e orgulho nacional. Os chineses chegam a Tóquio novamente com um amplo favoritismo.

Suporte para seguir

Se a pandemia determinou diversas adaptações na face esportiva, o treinador vê como outro lado essencial o fato de os atletas da equipe nacional terem mantido de forma ininterrupta o apoio e o suporte do programa de patrocínio individual do Governo Federal, o Bolsa Atleta. Hoyama sabe com precisão o significado do recurso repassado de forma direto porque chegou a ser contemplado no fim de sua carreira como atleta.   

“Ainda bem que prolonguei um pouquinho a minha carreira e consegui pegar no fim dela o Bolsa Atleta. Com certeza ajudou muito e continua ajudando os meninos. Esse recurso ajuda a investir em treinamentos, viagens, competições e equipamentos. Além disso, atleta treina bastante mas também tem família, ajuda nas contas em casa”, afirmou o treinador.Bruna Takahashi em Hamamatsu: atleta chegou ao top 50 no ciclo para Tóquio. Foto: Gaspar Nóbrega/COB

“Ah, vejo muita chance de o Calderno superar o recorde das oitavas de final e ir ainda mais longe. Do jeito que está treinando, solto, confiante, vejo isso com certeza. Ele sabe disso. Ele fala em entrevistas. Mostra confiança de que pode. Vamos torcer muito por essa batalha pela medalha inédita” 

Rodagem e entrosamento

Na face esportiva propriamente dita, Hoyama reconhece que a modalidade segue sob domínio praticamente intocável dos chineses, mas vê na química da equipe nacional ingredientes promissores. “A união do nosso grupo é muito boa. Uma sempre dá força para a outra. É uma equipe experiente. A Jessica Yamada vem para a primeira Olimpíada mas tem ampla rodagem no circuito internacional. A Caroline Kumahara vai para a terceira Olimpíada e a Bruna alcançou o Top 50 e está na segunda edição de Jogos”, listou Hoyama.

Para ele, o principal nesse processo recente é que as três tiveram chances de jogar bastante na reta final para Tóquio. “As três disputaram ligas importantes na Europa. Mesmo durante a pandemia tiveram oportunidades de treinamentos e de atuar em torneios. Mais do que isso, estão entrosadas. Tudo me leva a crer que farão um belo papel em Tóquio”.

Legado e investimento federal

Neste ciclo, o time masculino ficou entre as oito melhores no último Mundial por equipes, e o feminino segue numa evolução gradual. Como legado de 2016, dezenas de cidades receberam mesas, aparadores, redes e bolinhas utilizadas nos Jogos do Rio de Janeiro, o que ajudou a qualificar a prática da modalidade.

O tênis de mesa é uma das 19 modalidades em Tóquio que o Brasil disputará que tem 100% dos atletas da delegação nacional apoiados pelo Bolsa Atleta do Governo Federal. Os seis atletas titulares e os dois reservas brasileiros em Tóquio são integrantes do programa de patrocínio individual financiado por meio de recursos federais. No período entre os Jogos Rio 2016 e Tóquio 2021, foram investidos R$ 10,1 milhões no Bolsa Atleta para contemplar praticantes do tênis de mesa. Os recursos propiciaram a concessão de 562 bolsas no período.

 Torcida por perder um recorde

Hugo Hoyama divide com outro Hugo, o Calderano, o resultado mais expressivo já obtido por um brasileiro em Jogos Olímpicos  no tênis de mesa. Ambos chegaram às oitavas de final do torneio individual. Hoyama alcançou a etapa dos 16 melhores na edição de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996. Calderano fez o mesmo nos Jogos Rio 2016, no Brasil, há cinco anos.

Nos bastidores, o treinador não titubeia em dizer que torce muito para ver sua marca superada. Calderano chega a Tóquio como sétimo do ranking mundial. No ciclo atual, frequentou com assiduidade a fase de quartas de final dos torneios do circuito internacional. Se repetir a dose na capital japonesa, já fará história. Mas Hoyama avalia que há espaço para ir até mais longe.

“Ah, vejo muita chance de ele quebrar esse recorde. Do jeito que está treinando, solto, confiante, vejo isso com certeza. Ele sabe disso. Ele fala sobre isso em entrevistas. Mostra confiança de que pode. Vamos torcer muito”, comentou. “Ele tem como um dos pontos mais favoráveis, além da parte mental, o trabalho técnico e físico. Dá para batalhar por essa fase final e por essa medalha inédita”, encerrou Hoyama, numa referência ao treinador Jean René Mounie e ao preparador físico Mikael Simon, franceses que acompanham Calderano há mais de cinco anos.

Fonte: Rede do Esporte


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Wesley Lima

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades culturais, sócio-políticas e econômicas da região.
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