Crônicas

A parábola do filho, o lenço e a árvore

A SOCIEDADE PODE SER MELHOR A PARTIR DE NÓS MESMOS?

MENSAGENS DE ESPERANÇA PARA UM MUNDO EM AFLIÇÃO

RELAÇÕES RESTAURADAS E SOCIEDADE RENOVADA: HISTÓRIA DO PAI PRÓDIGO E O FILHO PERDULÁRIO

Até onde vai nosso desejo e busca por reconciliação, e sermos amáveis na prática, muito além da teoria?

O perdão vai além da justiça humana; é perdoar aquelas coisas que absoluta e humanamente não conseguiríamos

C. S. Lewis

Da série Parábolas da vida

Era uma vez, na cidade de Alford, na antiga Escócia, um jovem que vivia brigando com os pais e resolveu ir embora de casa para “ser feliz”.

Seu nome era John MacKenzie, de uma família simples e comum, descendente dos gaélicos.

O menino John cresceu influenciado por professores que mais doutrinavam ideologias do que instrução de ensinos específicos. Passou dias, meses e anos se aproximando e estabelecendo amizade com colegas rebeldes e revolucionários.

Tornou-se moço e passou a se desentender cada vez mais com pai e mãe, sempre lhes considerando antiquados (hoje, seriam chamados de cringe) e valorizando apenas seus “novos amores” e companhias. Ficava claro que, para John, seus pais eram coisa do passado, e apenas seus novos relacionamentos e conhecimentos eram importantes.

As brigas se tornaram insustentáveis, e o pequeno John, agora jovem adulto, decidiu ir embora.

Passou a viver de forma dissoluta, libertina, com amizades cada vez mais sinistras, rebeldes contra tudo e todos. A arrogância e espírito revolucionário era elemento crescente na vida de John.

O costume farrista, avesso ao trabalho, impulsionou John a comportamentos antiéticos, ilegais, imorais e totalmente sem respeito pelas tradições e costumes positivos de seus pais e contemporâneos.

A vida de John foi de rebelde sem causa a desastres terríveis, cada vez mais prepotente, sempre atraído a milicianos e pessoas de “vida fácil”, inclinados ao anarquismo (do grego, ἀναρχος, a partir do prefixo ἀν-, an-, “sem” + ἄρχή, arkhê, sem governo, desgovernado, que despreza arquétipos e princípios).

Naturalmente, foi de mal a pior, não apenas socialmente, mas como gente, como ser humano, cada vez mais em decadência.

Em certo momento, ainda que de forma contrariada, John tomou contato com uma mensagem que apresentava as Boas Novas (Boas Notícias, do grego, Ευαγγέλιο), e uma tal de “graça salvadora”, dizendo que sua vida poderia ser transformada desde a natureza, lhe proporcionando renovo. Insistiram que se tratava de Deus, não de proselitismo religioso. Não quiseram lhe dizer nome de nenhuma denominação, mas apenas que o chamado era diferente para cada personagem da História Humana, e que ele saberia quando fosse o dele.

John MacKenzie entendeu o chamado e começou uma série de mudanças essenciais. Investiu em ser cada vez mais amável e útil em seu meio.

Mas, uma coisa pesava muito: O abandono de seus pais, daquela forma tão rude e desrespeitosa, seguida de desonra sobre desonra para si mesmo.

Não, definitivamente John não era mais um mero religioso. Algo realmente estava diferente nele, de dentro para fora, não de fora para dentro. Ele não se preocupava em impor suas novas doutrinas e convicções aos outros, mas se sentia realmente feliz por ter um comportamento digno com cada pessoa. Ele mostrava, dia a dia, que não era, e não queria, ser mais o mesmo.

Com muita vergonha, John resolve voltar da cidade grande para a casa dos pais, no interior, se retratar, e praticar o amor superior que lhe entusiasmava.

Entusiasmo / Entusiasmado: Do grego, “en” (dentro) + “Theos” (Deus) = em Deus, pleno de Deus, inspiração divina, espiritualmente cheio, bem abastecido. A palavra entusiasmo chegou à língua portuguesa através do latim enthusiasmus, que adotou a palavra do grego.

Já homem, embora jovem, John decide colocar um anúncio anônimo num jornal que ele sabia circular na cidadezinha de seus pais. Ele tinha duas certezas: 1) de que seu pai leria o jornal, porque era hábito diário, e 2) seu pai entenderia a mensagem, mesmo em códigos, pois ele resolveu escrever coisas que deixariam muito óbvio ao pai do que e de quem se tratava.

E, lá vai John, para o balcão do jornal que era lido por seu pai, e paga para registrarem a seguinte publicação de página inteira:

AO MEU PAI, COM CARINHO. Pai, eu sei que errei. Sei que nos desentendemos por bobagens. Sei que muitas coisas se tornaram ruins por motivos fúteis. Eu reclamava e brigava o tempo todo com o senhor e com a mamãe por imbecilidades. Minha adolescência foi horrível, e vida de jovem, batendo cabeça, pior ainda. Quebrei a cara por seguir conselhos de meus “amigos”. Meus caminhos com “novos amores” na vida social cuja ideologia eu julgava a mais adequada, só me levaram de mal a pior. Não quero contar aqui todas as desgraças que aconteceram, mas quero que saiba que estou arrependido e com saudades. Mas estou com vergonha de tudo que fiz. Pai, vou pegar aquele trem que sai do Centro do Condado, de hora em hora, a partir das seis da manhã, e passa na cidadezinha de minha infância, da qual morro de saudades. Para ninguém ficar constrangido, e com máximo respeito, vou fazer uma sugestão muito humilde, querido pai (e mãe): Se vocês me perdoaram, coloquem um lenço branco bem na ponta do galho daquela maior árvore da praça. Estarei dentro do trem. Dá para ver bem a árvore de dentro do vagão. Caso eu veja o lenço branco na ponta do galho, saberei que vocês me perdoaram, e que posso descer para lhes abraçar e compartilhar de muito amor e uma nova vida. Vocês fariam isso por mim? Caso negativo, vou compreender. Sei que fiz muita besteira… e não descerei do trem… e seguirei meu caminho. Não colocarei nome, para não envergonhar ainda mais, nem a mim, nem a vocês, que eu tanto amo e estou uma saudades que chega doer. Com muito amor, seu filho”.

Não, John não perdeu aquele trem que saía às onze horas, mas, conforme publicou no jornal, deixou para “amanhã de manhã”.

Pegou o principal vagão e melhor lugar na janela.

A viagem era linda, e passou por muitas cidades, que trazia a memória dos Highlanders da Escócia, e também os das terras baixas, que ele conhecia tão bem… todas aquelas histórias, pessoas e tradições. É claro que a mãe e demais familiares fazem parte de tudo isso, mas esta parábola se concentra na conversa de John com seu velho pai, o humilde, porém grande MacKenzie.

Nas últimas curvas antes de chegar à cidadezinha de seus pais, John está tomado de fortes emoções e ansiedades. Ele se posiciona quase que com o corpo todo para fora da janela, e logo volta a se recolher e olhar escondido. Sua sua inquietação lhe denuncia.

Terminada a última curva, na reta para passar pela praça principal da cidade, antes de chegar à estação, John observa pela janela aquela pracinha de sua infância, todas as memórias reativadas, e A ÁRVORE – A ÁRVORE DE SUA VIDA: A copa estava tomada de lenços brancos, como se fossem abundantes frutos por todos os galhos.

Vamos fazer uma festa e comemorar. Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado’. E começaram a festejar.

Evangelho segundo Dr. Lucas – Lc.15.23,24 – NVI

John desce na plataforma que era logo adiante, volta correndo, abraça seus pais, que lhe dão calorosa acolhida, e ele pergunta “Mas o que significa essa árvore repleta de lenços brancos e essa multidão de pessoas na praça?”

O pai explica:

– Sabe, filho, sua mensagem de página inteira foi tão comovente, profunda e sincera… mas não tinha nome. Só sei que eu e todos esses outros pais resolvemos pegar nossas escadas e colocar lenços por toda a árvore, porque você não é o único. O ser humano é falho, pecador, limitado. Nós também não somos perfeitos, mas tentamos fazer nosso melhor, inclusive comprando mais tecido para colocar mais lenços nos galhos. Essa multidão é dos filhos que já chegaram no trem anterior, as famílias já estão festejando. Nunca deixamos de lhe amar. Vamos recomeçar, sempre e sempre. SEJA BEM-VINDO, FILHO!

A POSTERIORI:

Ninguém entendia por qual motivo, em todos os condados, cidades e estações por onde aqueles trens passavam, havia multidão e festa nas praças. Nunca se viu tantas cidades, praças e árvores com tantos lenços brancos, feitos pomar repleto de frutos, e tanta gente se abraçando. Era celebração e alegria verdadeira, sem necessidade de artifícios. Simples: Era o trem do amor, que levava aqueles que iriam se reencontrar. Tudo por causa de um jornal que aceitou o anúncio de um rapaz, e decidiu substituir uma página de noticiário comum, de desgraças e mentiras, para veicular boas notícias. Não precisa ser em datas oficiais ou tradicionais (para eles, não foi), muito menos ser algo drástico ou grave, mas, ainda que seja, milagres acontecem: John diz que basta crer! Todos lucraram.

  • Os leitores mudaram: passaram a ser mais ávidos pelos noticiários, ao verem que os jornais traziam boas novas, inclusive verdadeiros milagres relacionais, de natureza e de essência existencial.
  • Os trens mudaram: começaram ter mais passageiros, e distribuição gratuita apenas de jornais com ênfase em boas novas.
  • Os filhos mudaram: passaram se comunicar mais com os pais, não taxando-os de “cringe”, mas lhes considerando representantes divinos enquanto referenciais de família. Passaram lhes honrar, por mais que tivessem errado na vida, possuíssem outras vocações e experiências. Compreenderam mais profundamente o significado do primeiro mandamento seguido de promessa, em que pais e filhos falharam. Perceberam o quanto valia a pena manter vivos, na mente e coração, o caminho em que foram ensinados, da verdade e boas novas, no qual deveriam andar e, QUANDO GRANDES, não se desviar ou, caso ocorresse, retornar a ele. Provérbio, esse, salomônico (Mishlei) tão verdadeiro e impactante, que foi reeditada em várias épocas posteriores: “Eduquem as crianças, para que não seja necessário punir os adultos” (Pitágoras); “Criar uma criança é fácil, basta satisfazer-lhe as vontades. Educar é trabalhoso.” (Içami Tiba).
  • Os pais mudaram: passaram a crer mais nas folhas de árvores que, plantadas junto a rios da vida, produzem medicamentos para a alma. Renovaram-se na esperança e longevidade, experimentando o perdão, reconstrução e esquecimento das aflições (do hebraico, Mənašše, מְנַשֶּׁה) para verem a prosperidade, os redobrados frutos (do hebraico, Efráyim, אֶפְרַיִם) de seus filhos, revezando o bastão e semente das boas novas.
  • As árvores mudaram: começaram ter significados memoriais, troncos de renascimento, do retorno à vida, de marco zero, onde suas raízes recebem nutrientes das boas novas, cujas folhas são fitoterápicos da alma, terapêuticos e de cura para famílias e nações, cujos frutos são abundantes e jamais faltam.
  • As praças mudaram: se tornaram ponto de encontro, não por dever ou obrigação institucional; não para apenas cumprirem usos e costumes do “status quo” ou critérios “sine qua non” de comunhão, serviço espiritual, social, relacional. Antes, espontaneamente, de coração, de pessoas movidas pelo amor, celebrando reconciliações, alegria; festejando a paz e harmonia, transformados por boas novas.
  • Os jornais mudaram: passaram cumprir o que lhes é devido, primando por noticiar o fato, a verdade, antes de opiniões e análises. Os cadernos passaram a dar menos ênfase às desgraças, politicagens e ideologias, e passaram a veicular cada vez mais boas novas.
  • As famílias, instituições e cidades mudaram: Passaram a ser mais criteriosos com seus relacionamentos, compartilhando apenas coisas que eram verdadeiras e edificantes, evitando assassinatos de reputações. Começaram se afastar de toda toxidade nas conversações e intenções que pusessem prejudicar uns aos outros. Tomaram por principal costume COLOCAR EM PRÁTICA. na vida, a coerência de SEUS ENSINOS TEÓRICOS DE DÉCADAS: O amor, por meio de bons tratos e cordialidade. Deixaram de trazer desgraças para si, lutando pela verdade, muito fiéis, orando, sim, mas também marchando e influenciando como perfume, sal e luz, desde suas próprias casas e comunidades até seus governantes, todos menos preocupados com “fulano disse que” e mais atentos às verdades, aos fatos, às realidades e às boas novas.
  • As autoridades mudaram, e passaram a levar a sério essa população, ativa e responsável nas questões sociais, que exigia não menos do que o cumprimento do direito e da justiça, da constituição e leis conforme o poder que emana do povo, livres de corruptos e malfeitores do parlamento, limpando o sistema de vícios republicanos e trazendo anos de majestosa paz e prosperidade, frutos das boas novas.
  • As Boas Novas não mudaram.

Parafraseando Paulo, conforme nossos próprios poetas dizem: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã” (Eduardo Dutra Villa Lobos / Marcelo Augusto Bonfa / Renato Manfredini Junior [Renato Russo] – Pais e Filhos. As Quatro Estações. 1989)

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o sino que ressoa ou como o prato que retine.

Primeira carta do Apóstolo Paulo aos cristãos da cidade de Corinto – ICo.13:1 – NIV

A parábola se enriquece ainda mais por meio de uma antiga e atualíssima canção, Portas Abertas, que dá título ao sexto álbum de estúdio do Grupo Logos, lançado em 1987. O próprio autor, querido Paulo Cezar, pessoal e gentilmente nos autorizou brindar nossos seletos leitores com essa pérola. Cantor, compositor, produtor musical, multi-instrumentista e arranjador brasileiro, Paulo Cezar é mais conhecido por ser preletor, vocalista e principal compositor do Grupo Logos. Durante a década de 1970, fez parte do Grupo Elo. Em 2015, Portas Abertas foi considerado o 18º maior álbum da história da música cristã brasileira e, em 2019, eleito o 25º melhor álbum da década de 1980, numa lista compilada por músicos, historiadores e jornalistas.

Portas Abertas – Grupo Logos – Álbum Portas Abertas, 1987

Carpe diem. Frui nocte!

Envie para quem você ama!

⁞Ð.β.⁞


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Dan Berg

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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