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Violência contra mulher cresce assustadoramente no Paquistão

O Paquistão testemunhou vários casos de violência contra mulher no mês de julho, lançando luz sobre o estado deplorável dos direitos das mulheres no país.

Mariam, 30, é empregada doméstica e trabalha em três casas diferentes para sustentar sua família composta por três filhos e marido. Seu marido, de cerca de 70 anos, não contribui financeiramente para a casa desde o dia em que se casaram, há sete anos. Em vez disso, ele abusa física e verbalmente de Mariam.

“Assim que chego em casa, cansada de um árduo dia de trabalho em diferentes famílias, antes mesmo de eu colocar os pés dentro de casa, ele começa com sua tirania e começa a me bater”, contou Mariam ao The Diplomat.

Razzak casou-se com Mariam pelo costume de watta-satta,  uma tradição de trocas matrimoniais comum nas áreas rurais do país. A filha de Razzak de seu primeiro casamento foi casada com o irmão de Mariam, em troca de Mariam, que era casada com Razzak. Esse arranjo é uma das razões que prendem Mariam em seu casamento fisicamente abusivo. Se ela tentar deixar Razzak, ela corre o risco de ser socialmente rejeitada e arruinar a união do irmão.

“Eu implorei a meu irmão que me ajudasse. Ele diz que não pode fazer nada para me ajudar porque tem um casamento feliz, quatro filhos e está pronto para receber o quinto. Ele diz que não está pronto para arruinar sua vida de casado levantando a voz por mim com meu marido, que por acaso é seu sogro”, explicou Mariam.

A história de Mariam não é uma história isolada. Ela é uma das milhares de mulheres no Paquistão que enfrentam crimes e violência contra mulher, mas não constam nas estatísticas, pois nunca denunciam oficialmente seus agressores por vários motivos.

Um julho horrível

O Paquistão testemunhou vários casos de violência contra mulher no mês de julho, lançando luz sobre o estado deplorável dos direitos das mulheres no país.

Saima Ali, 23, ficou gravemente ferida junto com seu irmão quando seu pai, Raza Ali, um policial, abriu fogo contra sua família em 3 de julho na cidade de Peshawar. A mãe de Saima, Bushra Raza, morreu devido aos ferimentos e a dupla de irmãos ficou gravemente ferida.

Raza Ali tinha um histórico de dependência de drogas e violência doméstica. Saima lembra de uma infância repleta de abusos cometidos por seu pai. Um caso contra o suspeito foi apresentado na Delegacia de Machni Gate em Peshawar, mas semanas depois, o suspeito ainda está foragido.

Em 15 de julho, Qurat-ul-Ain Baloch, mãe de quatro filhos, foi supostamente torturada e assassinada por seu marido em Hyderabad, na província de Sindh, no Paquistão.

Em 20 de julho Noor Mukadam, 27, filha do ex-embaixador do Paquistão na Coreia do Sul e Cazaquistão, foi supostamente torturada e morta por um conhecido – Zahir Jaffer, o filho de 30 anos de uma família influente e dupla de nacionalidade paquistanesa-americana.

Mulheres no Paquistão

O brutal assassinato de Mukadam e os recentes casos de violência contra as mulheres mostram um quadro mais amplo: o estado do Paquistão falhou em proteger suas mulheres.

O Paquistão ficou em 153º lugar entre 156 nações no ranking ‘Diferenças globais entre gêneros 2021 do Fórum Econômico Mundial’. Na região do sul da Ásia, ocupa a sétima posição entre e países como o Afeganistão ocupa a posição mais baixa. O relatório comentou que “o progresso estagnou”, aumentando assim o tempo estimado para eliminar a lacuna entre os sexos para 136,5 anos.

Os casos de violência contra mulher são notoriamente subnotificados no Paquistão e não há como fazer uma estimativa correta. No entanto, os poucos casos que chegam às redes sociais são uma representação da situação dos direitos das mulheres no país. A lista de mulheres que enfrentam a violência, sendo mortas e estupradas, é interminável e trágica.

Vítimas, especialmente aquelas com origens de classe baixa, podem passar anos lutando por justiça, mas os casos se arrastam aparentemente sem fim. Demorou décadas para o país fechar uma brecha que permitia aos perpetradores de “crimes de honra” buscar o perdão pelos familiares da vítima e escapar da punição – uma condição fácil de cumprir, já que muitos criminosos são parentes das vítimas.

“Cada dia em que uma vítima não obtém justiça ou quando um perpetrador sai em liberdade após aumentar o número de mulheres sendo mortas ou violadas neste país deve ser um divisor de águas para o Paquistão”, disse Rimmel Mohydin, ativista do sul da Ásia da Amnistia Internacional.

Infelizmente, muitas vezes as pessoas no poder provaram ser parte do problema. O primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, foi criticado por seus comentários sobre as vítimas. Quando questionado em uma entrevista à BBC sobre o aumento dos casos de agressão sexual no país, Khan respondeu que a violência sexual era resultado da “obscenidade crescente” e que as mulheres deveriam se cobrir para evitar “tentações” na sociedade.

“Infelizmente, as declarações do primeiro-ministro desmentem a verdadeira natureza do crime e enviam às vítimas a mensagem de que são de alguma forma responsáveis ​​pelo que lhes acontece. Isso pode transformar a hesitação em se manifestar em recusa em se manifestar, o que, por sua vez, afasta ainda mais os perpetradores da responsabilidade”, explicou Mohydin.

* Os nomes foram alterados a pedido do entrevistado.

Com informações de The Diplomat

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Fernanda da Silva Flores

Fernanda da Silva Flores possui graduacao em Historia pela Universidade Norte do Parana (2018) e pos-graduacao em Gesto Educacional (2019) pela mesma instituicao. É correspondente para o Duna Press desde fevereiro de 2020 cobrindo assuntos referentes a direitos humanos e realeza com foco no Oriente Medio.
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