Saúde

Pesquisa demonstra como anúncios de televisão difundem maus hábitos alimentares

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A televisão (TV) é um veículo de comunicação utilizado para o entretenimento e para a educação e representa a fonte de informação sobre o mundo mais acessada pela maioria das pessoas, sendo capaz de transmitir aos mais diversos lugares e culturas dados sobre como as pessoas se comportam, o que vestem, o que pensam, como aparentam ser e o que comem.

 Nota-se significativo aumento do tempo gasto com o hábito de assistir à TV. No Brasil, adolescentes passam cerca de cinco horas por dia diante da TV. Sabe-se que uma exposição de apenas 30 segundos a comerciais de alimentos é capaz de influenciar a escolha de crianças por determinados produtos, o que mostra que o papel da TV no estabelecimento de hábitos alimentares deve ser investigado.

 Diante da TV, uma criança pode aprender concepções incorretas sobre o que é um alimento saudável, uma vez que a maioria dos alimentos veiculados possui elevados teores de gorduras, óleos, açúcares e sal.

 Maus hábitos alimentares estão associados a diversos danos à saúde, entre eles, a obesidade, cujos índices têm crescido nas últimas décadas como resultado de aumento no consumo de alimentos com alta densidade calórica e redução na atividade física.

 Há demonstrações de que, entre outros diversos fatores, o tempo que um adolescente passa assistindo à TV pode estar associado à obesidade: cada hora diante da TV pode ser associada, em média, a um aumento de até 2% na prevalência de obesidade.

 A obesidade torna-se um problema de saúde pública agravado pelo fato de a TV exercer grande influência sobre os hábitos alimentares e promover o sedentarismo.

 Conhecer como os meios de comunicação influenciam o estilo de vida e, principalmente, o comportamento alimentar, é essencial na tarefa de educar, informar e aconselhar os pais a respeito da influência da TV nas escolhas alimentares de seus filhos, além de dar subsídios para elaboração de estratégias de intervenção contra sua disseminação.

 Assim, pesquisadores do Laboratório de Nutrição e Comportamento do Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras de Ribeirão Preto, no Estado de São Paulo, unidade da Universidade de São Paulo, propõem, neste estudo, registrar a quantidade e a qualidade de produtos alimentícios veiculados pelas principais redes de TV de canal aberto do País.

Os dados foram obtidos por meio de gravações da programação das três principais redes de TV de canal aberto do País no período de agosto de 1998 a março de 2000.

Foram realizadas 12 gravações para cada rede, em cada período do dia (das 8h às 12h, das 14h às 18h e das 18h às 22h). As fitas foram analisadas e foi registrada a quantidade de 15 categorias diferentes de anúncios.

 Os dados foram tratados por uma análise da variação de dois fatores (categoria do produto e período do dia), seguida de uma análise post-hoc (isto é, feita depois das gravações) chamada de Student Newman-Keuls (teste estatístico de comparações múltiplas). Para a análise da qualidade, os alimentos foram classificados, quando possível, de acordo com a pirâmide alimentar (que aproximadamente ordena a quantidade de alimentos necessária a uma boa saúde com um desenho de pirâmide em que cereais e massas ficam na base, seguidos de frutas, legumes, verduras, leite, carnes e ovos que ficam no nível intermediário, e gorduras, óleos e doces na ponta, na menor quantidade)

 O registro de 432 horas de programação, em dias de semana, mostrou que os produtos são anunciados com freqüências diferentes em diferentes períodos do dia.

 A freqüência de anúncios, no período da manhã, é estatisticamente diferente da freqüência dos demais períodos. As categorias de produtos anunciados também diferem entre si , sendo que a categoria alimentos é a mais freqüentemente veiculada: os alimentos representaram 27,47% de todas as propagandas matutinas.

Além disso, a freqüência de veiculação de cada categoria depende do período, originando efeito significativo da interação dos fatores categoria e período do dia, além de aumento significativo da freqüência de propagandas de alimentos ao longo dos períodos, ou seja, noite, tarde e manhã.

O registro de 216 horas de programação durante os sábados mostrou que também nos fins de semana os produtos são anunciados com freqüências diferentes em diferentes períodos do dia. A freqüência de anúncios no período da noite foi estatisticamente maior que no período da manhã. As categorias de produtos anunciados também diferem entre si, mas a categoria alimentos segue como a veiculada com mais freqüência, com 22,3% de todas as propagandas.

 A veiculação de alimentos à noite é em média duas vezes maior que nos demais períodos. A comparação entre dias de semana e sábados mostra diferenças nas freqüências de veiculação de produtos, indicando efeitos significativos dos fatores: dia, categoria e interação entre dia e categoria.

 A freqüência de anúncios nos dias de semana é maior que a freqüência aos sábados para a maioria dos produtos. A categoria alimentos segue essa tendência.

 Outro dado interessante mostra que a veiculação de bebidas alcoólicas aos sábados cresce significativamente nos períodos da tarde e da noite.

Dos 1.395 anúncios de produtos alimentícios analisados, 57,8% estão no grupo da pirâmide alimentar representado por gorduras, óleos, açúcares e doces. O segundo maior grupo foi representado por pães, cereais, arroz e massas (21,2%), seguido pelo grupo de leites, queijos e iogurtes (11,7%) e o grupo de carnes, ovos e leguminosas (9,3%).

 Há completa ausência de frutas e vegetais. A pirâmide construída a partir da freqüência de veiculação de alimentos na TV difere significativamente da pirâmide considerada ideal. Há, na realidade, uma completa inversão, com quase 60% dos produtos representados pelo grupo de gorduras, óleos e doces e uma conseqüente redução do grupo pão, cereais, arroz e massas, além da ausência de frutas e vegetais.

Os resultados encontrados, além de mostrarem a importância que as redes de TV e os fabricantes dão para a veiculação de produtos alimentícios, também evidenciam que os comerciais de alimentos estão distribuídos por todos os períodos do dia. Esses achados são preocupantes se confrontados com aqueles que mostram que os indivíduos e, principalmente, as crianças, despendem cada vez mais tempo diante da TV. Há demonstrações de que os comerciais de TV influenciam o comportamento alimentar infantil e que o hábito de assistir à TV está diretamente relacionado a pedidos, compras e consumo de alimentos anunciados na TV.

 O problema, entretanto, é que a maioria dos alimentos veiculados possui elevados índices de gorduras, óleos, açúcares e sal, o que não está de acordo com as recomendações de uma dieta saudável e balanceada.

No Brasil, entre 1988 e 1996, traços marcantes e negativos de evolução do padrão alimentar foram observados nas pesquisas de orçamentos familiares. Observou-se tendência crescente na proporção de calorias lipídicas na dieta do Norte e Nordeste; manutenção desse indicador em torno de valores elevados no Centro-Sul; persistência de valores elevados para o colesterol dietético; aumento dos ácidos graxos saturados; e redução dos carboidratos complexos em todas as áreas metropolitanas do país.

Além disso, ocorreu estagnação ou redução do consumo de leguminosas, verduras, legumes, frutas e sucos naturais e ascensão do consumo já excessivo de açúcar refinado e refrigerantes.

 Maus hábitos alimentares, especialmente aqueles que acarretam a obesidade infantil, produzem problemas de saúde imediatos e também em longo prazo, visto que cerca de 60% de crianças obesas já sofrerem de hipertensão, hiperlipidemia (excesso de gordura) e/ou hiperinsulinemia (excesso de insulina, o que pode levar à diabetes).

 Assistir à TV é um comportamento sedentário comum em indivíduos de todas as idades, tendo-se demonstrado associações significativamente positivas entre o número de horas dependidas diante da TV e o peso de indivíduos. 

Assim, um comportamento sedentário de assistir à TV, aliado aos dados da análise qualitativa dos alimentos anunciados, indica uma situação preocupante no campo da saúde pública.

 No presente estudo, cerca de 60% dos alimentos veiculados na TV estavam classificados na categoria gorduras, óleos e açúcares. Assim, os dados do presente estudo sugerem que algumas medidas devem ser estudadas, no sentido de alterar o padrão de exposição à TV em jovens e adolescentes, já que, aliadas a políticas públicas de educação alimentar, poderiam prevenir o aumento da taxa de obesidade da população e, assim, reduzir muito os gastos públicos com os problemas de saúde desencadeados pelo excesso de peso e sedentarismo.

Pesquisador(es) Responsável(eis)

Sebastião de Sousa Almeida

Instituição(ões)

Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

Sugestões de leitura

Vídeo:

Publicidade e alimentação infantil, TV-USP

 Livro:

Obesidade na infância e adolescência, de M. Fisberg, São Paulo, Atheneu, 2004.

Data de publicação19/02/2004

Fonte: https://canalciencia.ibict.br

Ver também:

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Joice Maria Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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