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Como os animais são afetados pela inundação de florestas causadas por represas hidrelétricas?

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No Brasil, boa parte da energia que utilizamos no dia-a-dia é proveniente de hidrelétricas. Usinas assim são feitas ao longo de rios, construindo barragens que retém grande quantidade de água, a qual é usada para movimentar turbinas que geram energia elétrica. Embora seja uma fonte de energia que não produza tantos gases de efeito estufa como usinas a base de combustíveis fósseis, a instalação de hidrelétricas causa grandes impactos em seu ambiente. Mega represas representam um dos principais responsáveis por perdas de biodiversidade em países em desenvolvimento. A principal razão para isso é a inundação de áreas extensas que destroem a vegetação nativa e provocam a fragmentação de uma floresta que antes era contínua.

A ciência já sabe que ambientes fragmentados (seja por estradas, áreas de fazenda ou qualquer outro motivo) dificultam a sobrevivência de animais que precisam de grandes áreas para sobreviver. Isso pode acontecer pela redução na variedade de alimento disponível, redução da quantidade de parceiros sexuais e até por conta de mudanças no clima local que afetam a capacidade das espécies em tolerar condições adversas. Além disso, o desaparecimento de espécies causa desequilíbrios ambientais que podem levar a extinções em cadeia.

Em 1986, foi construída na Amazônia central a hidrelétrica de Balbina, cuja represa no rio Uatumã alagou uma região de floresta de mais de 300 mil hectares, criando mais de 3 mil ilhas de diferentes tamanhos.

Essas ilhas de floresta, juntamente com uma grande área de floresta contínua formada pela barragem foram transformadas, em 1990, na Reserva Biológica do Uatumã. Os pesquisadores Maíra Benchimol, da Universidade Estadual de Santa Cruz (Bahia) e Carlos Peres, da University of East Anglia (Reino Unido) e da Universidade Federal da Paraíba, desenvolveram um estudo no local para compreender quais fatores impactam a sobrevivência de espécies de vertebrados (incluindo mamíferos, aves de solo e jabutis) nessas ilhas criadas pela inundação. O objetivo foi analisar como as características desse ambiente altamente fragmentado afetavam a quantidade de animais e diversidade de espécies encontradas na região do reservatório.

O estudo foi desenvolvido em 37 ilhas e três regiões de floresta contínua localizadas na reserva do Uatumã. Para medir a biodiversidade nesses locais, os pesquisadores criaram uma lista com mais de 40 animais conhecidos como habitantes originais da área da barragem, incluindo principalmente aves e mamíferos de grande porte. A razão para essa escolha, deveu-se ao fato de que animais grandes e de sangue quente são importantes nas cadeias alimentares desses ambientes, sendo bons para indicar os impactos ambientais sofridos na região.

   Depois disso, os cientistas colocaram armadilhas fotográficas e realizaram percursos (a pé) nos diferentes locais do estudo para registrar quantos indivíduos de cada espécie estavam presentes nas diferentes ilhas e florestas contínuas. Com esses registros, elaboraram indicadores a respeito da biodiversidade, riqueza de vertebrados e abundância de cada espécie estudada.

As armadilhas fotográficas sendo instaladas nas matas de uma ilha. Fonte: do autor original do artigo.

Usando imagens de satélite, os pesquisadores obtiveram das áreas do estudo, dados como: tamanho das ilhas, grau de isolamento (distância das ilhas até a floresta contínua) e quantidade de cobertura vegetal no entorno (se eram mais ou menos cobertas por árvores). Cruzando-se essas informações ambientais com os registros dos animais, foi possível utilizar métodos estatísticos para analisar quais fatores do ambiente tinham maior impacto na biodiversidade, e quantidade de indivíduos observada nas ilhas e florestas contínuas.

Imagens obtidas dos animais da região. Foto 1 – Tatu Canastra (Priodontes maximus). Foto 2 – Mutum (Crax alector). Foto 3 – Onça-vermelha ou suçuarana (Puma concolor). Foto 4 – Anta (Tapirus terrestris). Fonte: do autor original do artigo.

As análises mostraram que o tamanho da ilha foi o principal fator que determinava a abundância de indivíduos e diversidade de animais vivendo nas ilhas. Isso significa que ilhas pequenas apresentavam baixa quantidade de animais de médio a grande porte, e as espécies que habitavam esses locais existiam em grupos reduzidos.

   Segundo os pesquisadores, os padrões de habitação observados nas ilhas do reservatório indicam que esse ambiente fragmentado é incapaz de sustentar grandes populações animais. Considerando a redução do número de indivíduos em todos os grupos de vertebrados, os cientistas estimam que quase três quartos de todas as espécies tenham deixado de existir na área do reservatório. Além disso, cerca de 7% dos que ainda existem enfrentarão mortes próximas, mesmo com os esforços de preservação existentes dentro da reserva do Uatumã.

   Os cientistas também reforçam a importância de se manter áreas amplas e intocadas de florestas ao redor das áreas de reservatórios para que seja possível uma preservação efetiva das espécies impactadas pela inundação. O método usado na pesquisa ainda pode ser empregado em outras situações envolvendo a construção de novas barragens. Considerando que 191 represas já foram construídas em território amazônico e outras 243 já foram propostas até o fim de 2024, compreender a fundo os riscos que a construção de hidrelétricas impõe à fauna é indispensável para garantir a sustentabilidade da floresta onde existem.

Pesquisador(es) Responsável(eis)

Maíra Benchimol; Carlos A. Peres.

Instituição(ões)

Universidade Estadual de Santa Cruz, Ilhéus, BA. Universidade Federal da Paraíba e University of East Anglia (Reino Unido).

Sugestões de leitura

BENCHIMOL, M.; PERES, CARLOS A. 2016. Hidrelétricas na Amazônia: Prejuízos à Biodiversidade. Ciência Hoje, v. 56, p. 30-33.

Data de publicação10/12/2020

Fonte: https://canalciencia.ibict.br

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Joice Maria Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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