Saúde

Malária: detê-la enquanto ainda não se consegue vencê-la

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A malária é uma doença causada por protozoários do gênero Plasmodium que são transmitidos a pessoas pela picada de mosquitos (do gênero Anopheles) que transportam esse microrganismo. Existem cinco espécies de parasitas que causam malária em humanos e duas delas (P. falciparum e P. vivax) apresentam o maior número de casos no Brasil. As pessoas infectadas por tais patógenos costumam apresentar febres, dor de cabeça, calafrios, indisposição e pode ser fatal se não for tratada corretamente.

O nosso país é responsável por grande parte dos casos de malária nas Américas. Isso ocorre, pois, uma porção considerável do território brasileiro fica na Amazônia, região onde essa doença é endêmica devido às condições ambientais que favorecem a proliferação do mosquito, e infra estruturais que impõem dificuldades de acesso a hospitais e tratamentos dos doentes.

Para tentar diminuir os casos de malária no Brasil, aplicam-se medidas de controle com dois principais focos: (i) redução do número de mosquitos em contato com as pessoas (por meio de repelentes, redes mosquiteiras), e (ii) tratamento dos pacientes infectados (por meio de remédios específicos). Contudo, é comum observar que, ao reduzir o número de casos, tais medidas começam a ser abandonadas, o que faz com que o sucesso da possível eliminação da doença na região não seja alcançado. Os cientistas perceberam que a maneira como a população entende esse problema de saúde é um fator chave para que essas medidas de controle não sejam abandonadas e a malária consiga assim ser controlada. Ou seja, a eliminação da malária necessita de ações de sensibilização para a conscientização da população, buscando ampliar o conhecimento e o engajamento das comunidades e impedir que as medidas de controle da doença sejam abandonadas. E, para sensibilizar a população, antes é preciso saber o que ela pensa.

Neste estudo, Felipe Murta (da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado, em Manaus) e sua equipe investigaram as percepções da população de Manaus sobre a malária, com foco em pacientes que já tiveram ou estão se tratando da doença, e em profissionais de saúde que trabalham com isso. O objetivo da pesquisa é tentar entender as razões pelas quais acontece o abandono das medidas de controle dessa enfermidade.

Os pesquisadores recrutaram para entrevista pacientes e agentes de saúde que trabalhavam no controle da malária, com o objetivo de coletar declarações sobre sua experiência com a doença. Para tanto, desenvolveram um guia de perguntas para investigar as percepções dos participantes. Cada depoimento foi gravado e transcrito para depois ser interpretado pela equipe. A análise do conteúdo desses depoimentos levou os pesquisadores a elencar 6 principais tópicos:

1. Comportamentos de risco: alguns acreditam que o consumo de comidas gordurosas aumenta as chances de ter malária, ou que a doença pode ser transmitida por ingestão de água contaminada, ou contato com fluídos corporais de outra pessoa.

2. Doença que mantém a pobreza: A perda de emprego como resultado da doença foi um dos problemas relatados, principalmente os que exigem vigor físico. Também relataram que a fome prejudica muito os tratamentos, visto que deixa o corpo fragilizado para os remédios que tem efeito forte. 

3. Controle de vetores: Redes mosquiteiras e inseticidas são importantes estratégias para o controle da doença. No entanto, a maioria dos pacientes entrevistados não vê importância no uso das redes, pois acreditam que a malária é transmitida fora de casa. Além disso, relatam alergias causadas pelo inseticida contido nas redes, levando alguns pacientes a lavá-las antes de usar. Contudo, a pulverização de inseticida pelas casas e ruas da cidade costuma ter relatos a favor.

4. Administração de medicamentos em massa: O principal argumento foi o medo de efeitos colaterais. Alguns pacientes não querem tomar medicação se não estiverem sentindo sintomas. No entanto, quando questionados sobre uma situação hipotética, onde o resultado da malária era positivo mesmo sem sintomas, a maioria foi a favor do uso de medicação.

5. Erradicação: As características da floresta Amazônica associadas à falta de infraestrutura impedem o correto controle e consequente eliminação da doença. Os pacientes comentaram que a erradicação é impossível porque o mosquito é comum na floresta e que, a menos que esta seja desmatada, a malária continuará na região. Eles acreditam que o desenvolvimento de uma vacina é a solução ideal para a erradicação.

6. Erradicação x desemprego:  E se a malária for eliminada? Cinco agentes de saúde estavam preocupados em perder seus empregos. Entretanto, para a maioria, a eliminação da malária seria uma grande vitória, resultado de todo o esforço diário.

Para a maioria dos entrevistados na pesquisa, a malária é uma doença tão comum quanto a gripe. Quando comparada a outros problemas diários associados a pobreza e outras doenças (dengue e leishmaniose), ela acaba perdendo a importância, mesmo sendo uma doença que cause prejuízos sociais e econômicos, como a perda de emprego ou até mesmo a morte.

A elevada quantidade de casos de malária no Brasil é preocupante e, por isso, é importante estudar os motivos pelos quais ainda não se conseguiu controlar efetivamente a doença. A pesquisa mostra que ainda existem vários mitos em relação à transmissão e ao tratamento da malária, o que dificulta a sensibilização da população da região em relação ao uso de medidas de controle (medicação, inseticidas, redes, repelentes).

Sensibilizar as pessoas para serem responsáveis ​​com sua saúde e a saúde da comunidade onde vivem é uma conhecida estratégia para o controle doenças evitáveis. Por isso, é essencial buscar entender a percepção das pessoas sobre o funcionamento do ciclo da malária, e, dessa maneira, ser possível compreender os mitos envolvidos no controle da doença para, então, desconstruí-los.

Pesquisador(es) Responsável(eis)

Felipe Leão Gomes MurtaInstituição(ões)

Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT‑HVD), Manaus e Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Manaus.

Sugestões de leitura

http://www.amazonas.am.gov.br/2016/07/fvs-am-distribui-40-mil-mosquiteiros-em-acao-de-combate-a-malaria-no-interior/

Data de publicação10/10/2019.

Fonte: https://canalciencia.ibict.br

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Joice Maria Ferreira

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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