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Desenvolvimento de pesquisas sobre uvas, sucos, vinhos e a composição química desses produtos no Nordeste do Brasil

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As pesquisas sobre uvas, vinhos e química têm permitido o avanço do conhecimento na área de Viticultura e Enologia. Os estudos em desenvolvimento, sobre os sucos e os vinhos elaborados em condições climáticas tropicais do Brasil, têm possibilitado obter resultados que podem trazer benefícios para a comunidade científica brasileira e internacional, bem como, e principalmente, para o setor vitivinícola da região e para a sociedade brasileira.

Trata-se de uma região que apresenta altas temperaturas durante o ano todo (média anual de 26ºC), com altos índices de radiação solar e água abundante para a irrigação, a partir do rio São Francisco, e que permite com que uma planta de videira vegete e possa produzir uvas, destinadas à elaboração de sucos ou vinhos, durante praticamente todo o ano, exceto nos períodos de chuvas, entre janeiro e abril. É o único local do mundo em que se possibilita escalonar as colheitas ao longo de oito meses, entre maio e dezembro. Uma planta de videira pode produzir entre duas e três safras por ano, dependendo do ciclo genético de cada cultivar, que podem ser classificadas de acordo com a duração do ciclo produtivo, entre precoces, médias e tardias.

Nos países vitivinicultores tradicionais da Europa, como França, Espanha, Portugal, Itália e Alemanha, nos Estados Unidos e Canadá, na Argentina, Chile, Uruguai, e no Brasil (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Minas Gerais), além de África do Sul, Austrália e Nova Zelândia, uma planta de videira produz uma safra por ano, entre agosto e outubro no caso do Hemisfério Norte, e entre janeiro e março, no Hemisfério Sul. 

Dessa forma, as pesquisas sobre uvas, sucos, vinhos e a química desses produtos no Nordeste brasileiro têm permitido a obtenção de resultados interessantes, com a qualificação e quantificação de compostos nutracêuticos, que podem ser considerados como benéficos à saúde humana. Além disso, em uma condição atual de mudanças climáticas mundiais, a região vitivinícola do Vale do São Francisco, no Nordeste do Brasil, está sendo considerada, por instituições internacionais parceiras das pesquisas em andamento na região, como um laboratório permanente de avaliação dos efeitos das mudanças climáticas globais sobre a vitivinicultura mundial.

Como exemplo, em um caso drástico de aquecimento global, as tecnologias utilizadas em 2011, no Nordeste brasileiro, como as cultivares adaptadas à região, ao uso e ao manejo da irrigação, dentre outros, poderão ser aplicadas em regiões que hoje são temperadas e que, dentro de 100 anos, poderão apresentar as mesmas características do Vale do São Francisco. Por isso é que o mundo vitivinícola está bastante interessado nas pesquisas em andamento sobre uvas, sucos e vinhos do Nordeste do País.

Diante da importância dos fatos expostos, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e um grupo de pesquisadores e professores, em parceria entre diversas instituições nacionais (Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade Federal de Lavras (Ufla), Fundação Ezequiel Dias (Funed), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)) e internacionais (Chaire Unesco Cultre et Traditions Du Vin da Universidade da Bourgogne-França, Groupe International d’Experts en Systemes Vitivinicoles pour la CoOperation (GiESCO), com a presença do setor produtivo da região (Vinhovasf), estão desenvolvendo as pesquisas que propõem avaliar:

– a influência dos climas nos diferentes meses do ano e do solo, onde estão localizadas as parcelas com as plantas de videiras;
– os porta-enxertos usados;
– os clones das diferentes cultivares;
– os diferentes níveis de irrigação e de estresse hídrico;
– as diferentes doses de nutrição mineral; 
– a tolerância ou sensibilidade a diferentes pragas e doenças;
– o ciclo de desenvolvimento das plantas; 
– a maturação das uvas e as datas de colheitas;
– os diferentes protocolos de elaboração dos sucos e dos vinhos, sobre as características analíticas e sensoriais dos sucos e dos vinhos obtidos.

Os processos de produção das uvas são acompanhados nas empresas parceiras e em áreas experimentais da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em que são coletadas as informações sobre as características agronômicas das plantas em respostas aos fatores mencionados. Após a colheita, as uvas são transportadas para o Laboratório de Enologia da Embrapa em Petrolina (PE), onde são elaborados os sucos e os vinhos, a partir dos diferentes tratamentos em campo, bem como outros tratamentos adotados em laboratório, com diferentes protocolos de elaboração, buscando compreender os efeitos das variáveis sobre as caracterísiticas analíticas (composição físico-química), metabóilicas e sensoriais das uvas, sucos e vinhos.

Por meio da utilização de diferentes estruturas analíticas da Embrapa e das universidades envolvidas, estão sendo determinados e caracterizados compostos químicos que podem ser correlacionados à saúde humana. Como exemplo, os teores de resveratrol encontrados nos vinhos tropicais da região são entre duas (para os vinhos de Petit Verdot) e seis (para os vinhos de Syrah) vezes mais elevados do que os encontrados na literatura mundial, a partir de vinhos franceses, argentinos ou mesmo brasileiros. Este tipo de resultado leva a crer que os vinhos tropicais do Brasil podem fazer mais bem à saúde do que vinhos obtidos em regiões de clima temperado. No entanto, esta afirmação é apenas uma hipótese que ainda deve ser comprovada após a realização de ensaios, iniciados em breve, contando com a colaboração de médicos designados para a avaliação dos efeitos do consumo desses vinhos sobre pacientes.

Outros resultados interessantes obtidos até o momento são os compostos aromáticos encontrados nos vinhos tropicais da região. Têm sido alcançados resultados que permitem descrever a qualidade e a tipicidade dos vinhos tropicais, com relação aos compostos químicos ésteres voláteis e alcoóis superiores. Novos estudos estão sendo realizados, para que se possam descrever aqueles metabólitos típicos somente desta região, com a implantação de um Laboratório de Cromatografia na Embrapa.

As pesquisas em desenvolvimento na região sobre uvas, sucos e vinhos estão apenas no começo; há somente três anos. As variáveis encontradas na região são muito maiores do que aquelas encontradas em condições de clima temperado. Como exemplo, as características químicas e sensoriais dos vinhos variam de acordo com a quinzena e com o mês em que os produtos são elaborados.

Como relatado neste trabalho, é possível produzir uvas e elaborar sucos e vinhos entre os meses de maio e dezembro. As empresas escalonam a produção e, em praticamente todas as quinzenas e todos os meses nesse período, elaboram os vinhos tropicais. Assim, torna-se necessária, para o setor vitivinícola do Vale do São Francisco e para a sociedade brasileira, a busca por informações, com mais detalhes, a respeito da influência dos fatores – clima, solo, métodos de elaboração – em diferentes meses, sobre as carcterísticas químicas e sensoriais dos vinhos obtidos.

O setor vitivinícola da região estão em busca da Indicação Geográfica de Procedência (IGP) para os vinhos do Vale. Este registro é requerido a partir de uma solicitação do setor, apoiado pela Embrapa e instituições parceiras, ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), que pode demorar até dois anos para ser obtido, se o dossiê estiver bem elaborado. Este processo para os vinhos do Vale estão sendo criado.

Esta pesquisa se reveste de importância, uma vez que, com a possível obtenção do selo de IGP, os vinhos do Vale poderão ter maior proteção contra fraudes, haja vista que o nome Vale do São Francisco será protegido, possibilitando maior divulgação dos produtos com o selo, junto à Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil passará a divulgar com respaldo esses produtos, bem como permitirá um desenvolvimento com mais sustentabilidade para o setor vitivinícola do Vale, agregando maior valor aos produtos, com melhor reconhecimento por parte dos consumidores, e a certeza de que se trata de produtos seguros, isentos de contaminantes.

As investigações sobre sucos de uva ainda são incipientes no País, mas a capacidade de obtenção de sucos de alta qualidade, ao longo do ano, pode ser um fator importante para o crescimento deste produto na região. Diversos empresários estão se mobilizando para a instalação de vinhedos que produzam uvas para sucos. Os resultados obtidos nas pesquisas em andamento mostram que a qualidade química e sensorial dos sucos é elevada, representando uma excelente oportunidade de investimento. A abrangência dos consumidores para este tipo de produtos, dentre eles crianças e idosos, torna a atividade promissora para o futuro da região. Os consumidores agradecerão.

Pesquisador(es) Responsável(eis)

Giuliano Elias Pereira

Instituição(ões)

Embrapa Uva e Vinho

Embrapa SemiáridoSugestões de leitura

PEREIRA, Giulliano Elias. Vale do São Francisco: tintos e brancos de uma nova latitude. Jornal Bon Vivant, 05 jun. 2007.

REVISTA BRASILEIRA DE VITICULTURA E ENOLOGIA. Bento Gonçalves, RS: Associação Brasileira de Enologia. Ano I, n°1, out. 2009. Disponível em:  http://www.enologia.org.br/feiras-e-eventos/revista-brasileira-de-viticultura-e-enologia/a-revista 

SOARES, José Monteiro; LEÃO, Patrícia Coelho de Souza A vitivinicultura no semiárido brasileiro.Petrolina, PE: Embrapa Semiárido, 2009. 756 p.

Fonte:

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Joice Maria

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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