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Genética alerta para a extinção de grandes predadores

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Grandes predadores, como as onças, desempenham importante papel nos ecossistemas. Por estarem no nível mais alto da cadeia alimentar, são também chamados de ‘predadores de topo de cadeia alimentar’ e controlam o crescimento de populações de herbívoros, como capivaras, veados e porcos-do-mato, bem como de predadores de menor porte, como jaguatiricas, raposas e mãos-peladas.

A destruição do meio ambiente causa a perda de habitats e a fragmentação florestal que, por sua vez, provocam o isolamento de populações de animais, ameaçando, especialmente, espécies que precisam de grandes áreas para viver, como é o caso dos predadores de topo. A extinção desses predadores, essenciais para o equilíbrio dos ecossistemas, romperia as interações entre eles e suas presas, com efeitos desastrosos ao equilíbrio do meio ambiente.

Alguns predadores de topo estão próximos da extinção por apresentarem populações pequenas e isoladas. O isolamento é crítico porque favorece cruzamentos entre indivíduos aparentados, aumentando a consanguinidade e diminuindo a variabilidade genética, o que torna esses indivíduos menos férteis e mais vulneráveis a doenças. Na Mata Atlântica, por exemplo, um dos biomas mais desmatados do Brasil, as populações de onça-pintada vêm reduzindo drasticamente nas últimas décadas. Estima-se que existam menos de 250 onças-pintadas, divididas em oito populações isoladas uma das outras. Provavelmente, a Mata Atlântica será o primeiro bioma a perder o seu maior predador.

No Cerrado, a fragmentação está ameaçando as espécies lobo-guará – o maior canídeo da América do Sul – e suçuarana – também conhecida como onça-parda, leão-baio ou puma –, felino menor do que a onça-pintada e com ampla distribuição no Brasil. Tanto o lobo-guará quanto a suçuarana estão na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção devido à destruição de seus habitats naturais.

Diante desse cenário preocupante, o pesquisador Pedro Manoel Galetti Junior, do Laboratório de Biodiversidade Molecular e Conservação, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), analisou a variabilidade genética de lobos-guarás e suçuaranas com o objetivo de avaliar a viabilidade de populações dessas espécies sobreviverem a longo prazo. A pesquisa, que utiliza um novo método de análise de DNA, é uma das 14 executadas pela ‘Rede Sisbiota – Predadores de Topo de Cadeia’, a qual estuda, de forma integrada, o impacto da extinção dos predadores de topo de cadeia a fim de definir medidas de proteção e estratégias para a conservação dessas espécies.

A variabilidade genética foi analisada a partir do DNA extraído das fezes de lobos-guarás e suçuaranas. Esse método de extração é muito útil, porque dispensa a captura dos animais, permite identificar cada indivíduo e ainda estimar o tamanho da população. No entanto, o método exige do pesquisador um conhecimento sobre as características das fezes (tamanho, formato, textura, cheiro, presença de sementes ou pelos etc.) da espécie estudada e seus hábitos de defecar (muitos mamíferos utilizam fezes e urina como marcação de território), a fim de evitar que amostras indesejáveis, de espécies diferentes, sejam coletadas.

As fezes de suçuaranas foram coletadas no entorno de 15 municípios localizados ao nordeste do estado de São Paulo, totalizando uma área de transição entre o Cerrado e a Mata Atlântica, com cerca de 1.700 km2. As de lobo-guará, nas proximidades do município de Luís Antônio, em uma área de Cerrado que inclui a Estação Ecológica de Jataí, unidade de conservação cercada por monoculturas de cana-de-açúcar, fazendas de gado, plantações de eucalipto e autoestradas. Cada amostra de fezes foi armazenada em recipiente limpo e esterilizado, identificada com a localização exata do local da coleta (com a ajuda do GPS) e congelada. As fezes, em sua maioria, foram encontradas em trilhas ou estradas.

No laboratório, as amostras foram submetidas a tratamentos químicos para a extração do DNA, que foi isolado tanto de mitocôndrias quanto do núcleo de células presentes nas fezes dos animais. A análise do DNA foi realizada em duas etapas. Na primeira, os pesquisadores usaram o DNA das mitocôndrias para identificar a espécie que depositou as fezes, o que permitiu descartar amostras de fezes de outras espécies que não eram alvo da pesquisa. Na segunda etapa, os pesquisadores usaram o DNA do núcleo das células para identificar cada indivíduo, bem como o sexo de cada um. Com esses dados, foi possível estimar a abundância das espécies nas áreas de estudo. Ao todo, foram identificados 13 indivíduos de lobos-guarás e 25 de suçuaranas.

O declínio das populações de grandes carnívoros predadores, no Brasil e em diferentes partes do mundo, é consequência da perda do habitat, caça, perseguição e conflitos com humanos, sobretudo devido a predação de rebanhos domésticos – que se tornaram alternativa para escassez de presas naturais. E são justamente esses predadores os maiores consumidores na cadeia alimentar, capazes de influenciar fortemente na diversidade de espécies e equilíbrio dos ecossistemas. Nesse contexto, as pesquisas nas áreas de genética, ecologia, comportamento e habitat de espécies ameaçadas de extinção fornecem dados fundamentais – tais como o tamanho das populações, nascimentos, mortes, emigrações e imigrações, variabilidade genética e consanguinidade – para definir estratégias e programas de conservação.

O DNA retirado das fezes dos lobos-guarás mostrou que a população apresenta variabilidade genética satisfatória. Análises detalhadas, entretanto, indicaram que os lobos que vivem na região estudada são aparentados, ou seja, não há muita diferenciação entre os parceiros no momento da reprodução, o que pode, em longo prazo, prejudicar a população caso os animais jovens não consigam migrar para outras regiões a fim de encontrar parceiros não aparentados.

Já as suçuaranas apresentaram variação genética maior, o que é desejável. Essa variação pode ser explicada pelo hábito de vida mais generalista dessa espécie, que consegue se deslocar por longas distâncias diariamente, atravessando até mesmo áreas com intensa atividade e ocupação humanas, o que aumenta as chances de cruzamentos entre indivíduos não aparentados, mas também os riscos de morte por atropelamento e caça.

Uma paisagem muito modificada afeta, principalmente, animais especialistas, como as onças-pintadas, que terão menor oferta das presas que fazem parte da sua dieta e maior dificuldade de deslocamento pela paisagem desflorestada. Portanto, as onças-pintadas são muito mais ameaçadas pela fragmentação e perda de habitat do que as suçuaranas. Talvez por isso, durante a realização da pesquisa, os pesquisadores não tenham encontrado fezes de pintada, sugerindo que elas estejam extintas na área onde foram feitas as coletas.

Nos últimos 50 anos, a área plantada com cana-de-açúcar no Brasil aumentou de 1,4 para 7 milhões de hectares. Cerca de 50% dessa área está localizada no estado de São Paulo, onde também há plantações de eucalipto, pastagens e centros urbanos em expansão. Tais atividades humanas transformaram drasticamente a vegetação original no nordeste do estado, região onde a pesquisa foi realizada, a qual se encontra bastante fragmentada, com pequenas manchas de vegetação nativa desconectadas, cercadas por áreas alteradas. O diálogo entre sociedade, pesquisadores e governantes, sobretudo o compartilhamento de informações em linguagem clara e acessível com gestores públicos e tomadores de decisão, deve acontecer para que se tenha a preservação de grandes áreas que possam garantir a manutenção de populações saudáveis e viáveis de grandes predadores.

Pesquisador(es) Responsável(eis)

Pedro Manoel Galetti Júnior

Instituição(ões)

Universidade Federal de São Carlos

Sugestões de leitura

Vídeo do pesquisador Pedro Galetti sobre a pesquisa

Predadores são essenciais para o equilíbrio do ecossistema

Conheça o lobo-guará, símbolo do Cerrado

Livro Vermelho das Crianças

Fonte:

Ver também:

Conheça como funciona o trabalho de uma OSCIP que resgata animais em situação de risco e abandono.

Como estabelecer metas de estudos.

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Joice Maria

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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