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Esportes

De azarões à conquista histórica: ouro do vôlei em Barcelona 1992 completa 30 anos

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Destaque da equipe, Marcelo Negrão conta detalhes da vitoriosa campanha que rendeu primeira medalha de ouro em esportes coletivos ao Brasil.

A medalha de ouro que marcou gerações e fez o vôlei se popularizar ainda mais no país completa 30 anos. Foi no dia 9 de agosto que Marcelo Negrão deu aquele saque indefensável para a defesa da Holanda, fechando a final dos Jogos Olímpicos Barcelona 1992 em 3 a 0. O Brasil conquistava o primeiro ouro em esportes coletivos na história. 

Para Negrão, um dos destaques da equipe comandada por José Roberto Guimarães, o título é o maior responsável pelo vôlei brasileiro ter chegado ao nível que se encontra hoje. 

“O brasileiro gosta de ganhar. É um povo sofredor, que trabalha demais. E em qualquer competição, se acabamos em segundo, fica a frustração. O Brasil nunca tinha ganhado o ouro. Eu não ligava, queria estar lá. Mas fazia falta ganhar para o brasileiro. Quando veio o ouro, tudo explodiu aqui”, disse.

“Hoje tem o centro de treinamento em Saquarema, que é algo absurdo de bom, sensacional. Tem patrocinadores. E a gente não tinha nada disso, ficávamos alojados em quartel, era outro mundo. Comia a comida de soldado. Quando veio a medalha, tudo do bom e do melhor veio para o vôlei. O esporte precisa de investimento, estudo, muita coisa. E após aquela medalha, os patrocinadores enxergaram que o vôlei tinha isso. Acho que a modalidade estar como está hoje foi graças à medalha que ganhamos. Abriu o caminho e a mente de todo mundo”, analisou. 

A medalha de ouro em 1992 foi tão importante para o esporte brasileiro, que 30 anos depois continua sendo exaltada, de acordo com Marcelo Negrão. 

“Foi algo sensacional e continua sendo até hoje. Todo dia, até hoje, onde eu vou as pessoas me reconhecem, falam da medalha. Conheci muitos Marcelos por conta daquela medalha, muita gente que entrou no vôlei por isso. É um mundo muito louco e a cada dia eu ainda sei o peso daquela medalha”, contou. 

Marcelo Negrão em ataque durante o torneio. Foto: Arquivo COB
SENTIMENTO PELO OURO

Marcelo Negrão era um garoto de apenas 19 anos naqueles Jogos Olímpicos. O fato de poder disputar a competição já era algo tão marcante, que deixou a possibilidade de conquistar medalha em segundo plano. 

“Eu era muito novo. Estava representando meu país, que era a honra e glória maior para um atleta. Estar nos Jogos Olímpicos era um momento que eu estava orgulhoso demais do que consegui e conquistei. Poder mostrar para minha família que eu estava lá já era sensacional. Ganhar os Jogos Olímpicos é algo que eu só via em filme americano. E de repente eu estava lá, me vendo ganhar a medalha de ouro, subindo no pódio olímpico. Era uma explosão de sentimentos. Eu não entendia nada do que era aquilo”, relembrou. 

DE AZARÕES AO TÍTULO HISTÓRICO

O Brasil chegou aos Jogos Olímpicos Barcelona 1992 sem muitas pretensões de conquistar medalhas. O retrospecto contra os adversários era desfavorável e a seleção não vivia seu melhor momento dentro de quadra. 

De acordo com Marcelo Negrão, a medalha era um sonho distante para um grupo que projetava somente colocar o vôlei brasileiro no alto nível mundial. 

“Sabíamos das limitações do nosso time. Já era um orgulho estar lá. Nossa obrigação era ir bem, o Zé cobrava muito isso de nós. Ele pedia para darmos o máximo e representar bem o Brasil, levar o país ao nível mais alto possível. Mas jamais imaginávamos ser campeões.” 

“A gente nunca tinha vencido ninguém, uma vez ou outra dos Estados Unidos, de Cuba. Sempre perdíamos da Rússia, da Holanda… Não tinha um time que a gente achava tranquilo jogar. Chegamos lá com vontade de jogar bem, cada um dar o seu melhor, sem esse pensamento de que íamos ganhar. E as coisas foram acontecendo. Teve uma mudança tática do Zé que surpreendeu o mundo todo e ajustou nosso time”, explicou. 

Carlão, Marcelo Negrão e Giovane no bloqueio durante jogo. Foto: Arquivo COB
A MUDANÇA DECISIVA

Foi em 1992 que o técnico José Roberto Guimarães começou a escrever a sua incrível trajetória olímpica. E o primeiro dos seus três ouros veio muito por conta de uma alteração tática que ele fez na equipe.

Marcelo Negrão, que era oposto em sua posição de origem, passou a atuar pelo meio. Assim, desarmou e confundiu as defesas adversárias, que não conseguiram se adaptar. 

“Eu tinha uma deficiência grande no bloqueio. O Zé me colocou pra jogar no meio, com dois ponteiros me ajudando no bloqueio, um de cada lado. Eram o Carlão e o Giovane. Isso não existia até então, um oposto jogando pelo meio, era sempre na ponta. Quando comecei, os caras olhavam e deviam pensar que eu estava fazendo papel de bobo jogando pelo meio”.

“Aí o Maurício ia, levantava, eu dava uma porrada pelo meio. Aí quando me marcavam no meio, abria a bola na ponta, com o bloqueio quebrado. Em uma competição rápida, eles não tinham tempo de treinar e estudar nosso time com essa mudança. Eu e o Carlão trocávamos o tempo todo e os caras ficavam malucos. O gênio, que era o Maurício, tinha uma mão sensacional pra distribuir. Ficamos confiantes, aí é difícil segurar”, explicou.

VOLTA AO BRASIL COMO ASTROS

A conquista do ouro olímpico transformou os jogadores da seleção brasileira de vôlei em grandes astros no país. Por muito tempo, a presença deles nos lugares causava tumultos e aglomerações. Marcelo Negrão chegou a “sofrer” com isso após Barcelona 1992.

“Um dia eu fui ao shopping perto de casa. As pessoas foram chegando ao meu redor, de repente formou uma multidão, eu não sabia o que fazer. Os seguranças fazendo uma cordão pra me proteger. Chega um cara e me convida a se retirar do shopping, falando que não esperavam minha presença e que quando eu quisesse ir, eu poderia avisar que eles preparariam uma segurança especial para mim (risos). Me escoltaram até meu carro, aquela multidão vindo atrás, eu tive que ir embora. Não pagava mais restaurante, tinha patrocínio de tudo. O mundo virou de cabeça pra baixo do nada”, lembrou ele, que viveu situações semelhantes ao lado dos companheiros de seleção. 

“Foi um erro grande não terem preparado a gente, não terem bolado estratégias. Foi muito no oba-oba e nos assustou. Fomos fazer treino em Salvador, teve gente que invadiu a pista do avião, fãs subindo na asa do avião. Saímos com o ônibus pela pista. Tinha ginásio abarrotado, meninas se pendurando no nosso ônibus. Foi uma coisa absurda”, contou. 

UM TIME QUE VIROU UMA FAMÍLIA

A equipe campeã olímpica era formada por Carlão, Douglas, Giovane, Janelson, Jorge Edson, Marcelo Negrão, Maurício, Pampa, Paulão, Talmo e Tande. Mesmo 30 anos depois, a amizade e o contato praticamente diário permanece até hoje entre eles. 

Negrão lembra com carinho dos momentos vividos em Barcelona e exalta o carinho que todos têm uns pelos outros daquele time. 

“Se eu pudesse, não acabaria aquilo jamais. É um sentimento de saudade. Éramos moleques, estávamos sempre juntos. Ficávamos bravos quando o Zé dava folga, a gente queria estar junto o tempo todo. O time ia junto pras baladas, pro shopping, todo mundo aprontava junto (risos). Era sensacional. Eu sinto muita falta. Quando nos encontramos, damos risadas por horas. É um sentimento de saudade muito grande. Sinto muito orgulho do que fizemos, mas muita saudade também. Queria voltar naquele tempo”, contou.

“É uma relação de irmãos. Temos nosso grupo, nos falamos o tempo todo, nunca perdemos isso. Cada um tem sua atividade. Se eu fosse milionário, dava um fortuna pra cada um pra morarmos todos na mesma vila com nossas famílias. A união que ficou entre nós é uma coisa rara”, completou. 

Jogadores da seleção no pódio. Foto: Arquivo CBV

Fonte: COB


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Wesley Lima

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades culturais, sócio-políticas e econômicas da região.
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