fbpx
News

Por que os baianos comemoram o 2 de julho como Independência da Bahia

Compartilhar

Os baianos costumam dizer que o processo de independência do Brasil começou e terminou na Bahia, por meio de conflitos armados contra portugueses que se estenderam por 16 meses, entre 19 de fevereiro de 1822 (antes, portanto, do Grito do Ipiranga) e 2 de julho de 1823, com a expulsão definitiva das tropas leais ao governo de Lisboa que cercavam Salvador. 

Embora a maioria dos historiadores evite atribuir nossa independência a uma série de eventos ocorridos num único estado, é consenso que os confrontos violentos na Bahia ao longo daqueles 16 meses foram decisivos para a separação de Portugal – o que ajuda a explicar o orgulho dos baianos, que até hoje comemoram nas ruas o 2 de julho como a “Independência da Bahia”, com um peso mais relevante que o próprio 7 de Setembro em outras regiões do país.

Parte desse orgulho cívico baiano se deve à resistência heroica nos conflitos com os portugueses, que tiveram forte mobilização e apoio de todas as camadas da população, de escravizados a senhores do engenho. Essa união foi uma resposta à violência empregada pelos portugueses na Bahia ao longo desse ano e meio, incluindo invasão de casas e massacres de civis, além de centenas de mortos em combates militares.

A rigor, o processo de independência do Brasil teve início antes, com a Revolução Liberal do Porto, de 1820, uma disputa política entre a elite portuguesa e a família real, que culminou com a convocação de uma Corte Constitucional, para escrever uma nova Constituição para Portugal, de teor liberal. 

Incomodada com o peso cada vez maior do Brasil nas decisões da Coroa, a elite liberal portuguesa passou a exigir a volta do país à condição de colônia (o Brasil havia sido elevado à condição de Reino Unido a Portugal e Algarve por D. João VI, em 1815) e o retorno do então príncipe D. Pedro a Portugal. Enquanto isso, os brasileiros tentavam resistir à investida dos portugueses que moravam no país.

O estopim para a violência na Bahia ocorreu depois que a Corte Constitucional aprovou a nomeação de militares portugueses como novos governadores de armas das províncias (estados). 

O indicado para o posto na capital baiana, o tenente-coronel português Inácio Luís Madeira de Melo (promovido a brigadeiro para assumir o posto), substituiria um brasileiro, brigadeiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães. 

Uma das primeiras medidas de Madeira de Melo no novo cargo, no intuito de reforçar sua autoridade, foi inspecionar as infantarias, de maioria brasileira. Na época, militares portugueses e brasileiros ocupavam instalações militares separadas. 

A truculência usada pelos militares portugueses revoltou seus colegas brasileiros, em meio a relatos de hostilidades contra a população civil. A tensão aumentou depois que Madeira de Melo mandou bombardear o Forte São Pedro, onde militares baianos estavam aquartelados. 

Ao mesmo tempo, começaram a pipocar embates de rua entre soldados portugueses e brasileiros, com apoio de civis. Documentos históricos falam em cerca de 240 mortos nos confrontos, levando muitos baianos a fugirem de Salvador para cidades próximas no Recôncavo Baiano. 

Na manhã de 19 de fevereiro de 1822, militares portugueses invadiram o Convento Nossa Senhora da Conceição da Lapa, após receber uma denúncia de que militares brasileiros estavam escondidos no local. Durante a invasão, os portugueses agrediram o capelão Daniel Lisboa e atacaram a abadessa Joana Angélica, de 60 anos, que morreu com golpes de baioneta e acabaria imortalizada como mártir da independência da Bahia.

O assassinato de uma freira dentro do convento causou comoção e acelerou a formação de um governo paralelo de militares e civis brasileiros em Cachoeira (120 km de Salvador), para organizar a resistência e a retomada da capital. Os baianos deixaram de lado suas diferenças – havia os que defendiam a independência de Portugal, os que sonhavam em proclamar a República e os que defendiam uma ou outra opção desde que a escravidão fosse abolida – e se uniram em torno de D. Pedro.

Como Salvador havia sido capital do Reino entre 1549 e 1763, os militares portugueses mantinham grande efetivo e armamento pesado na cidade. A estratégia adotada por militares a mando de D. Pedro era cercar as tropas portuguesas em Salvador, impedindo que recebessem provisões e reforços, mas evitando confrontos diretos. 

Os portugueses tentaram romper o cerco em duas oportunidades. A primeira, no dia 8 de novembro de 1822, resultou na maior batalha da independência, a de Pirajá, a cerca de 10 quilômetros do centro de Salvador, com mais de 200 mortos.

A segunda tentativa portuguesa se deu com um ataque à ilha de Itaparica em 7 de janeiro de 1823, quando terminaram novamente derrotados após três dias de confrontos.

O cerco por terra às tropas portuguesas organizado pela resistência baiana ganhou o reforço do almirante Thomas Cochrane, contratado por D. Pedro I para criar uma Marinha brasileira. Embarcações sob seu comando organizaram um bloqueio naval em Salvador, para impedir o desembarque de navios portugueses.

A estratégia deu certo: no dia 2 de julho de 1823, sem conseguir entrar em Salvador por terra e mar, os portugueses tiveram de fugir. Um total de 83 navios de guerra e mercantes portugueses deixaram às pressas a capital baiana rumo a Portugal.  A resistência portuguesa prosseguiria no Maranhão, Pará e Piauí, mas para os baianos a independência do Brasil já estava consolidada.

Além de produzir uma mártir – a abadessa Joana Angélica – a chamada Independência da Bahia produziu pelo menos outras duas heroínas famosas. 

Maria Quitéria de Jesus, nascida em Feira de Santana, entrou para a história como a primeira mulher a ingressar nas Forças Armadas. Isso porque ela se vestiu de homem, usando os documentos do cunhado, para se alistar como “soldado Medeiros” nos confrontos contra os portugueses. 

Outra heroína foi Maria Felipa de Oliveira, vendedora de mariscos na Ilha de Itaparica, que organizou uma unidade à parte, formada por mulheres.

O grupo era encarregado de atrair os guardas dos navios portugueses para a praia, durante a madrugada, usando a tática da sedução. Quando ficavam nus, eram dominados – enquanto soldados brasileiros invadiam e queimavam o navio. Pelo menos 42 embarcações portuguesas foram destruídas.

A independência da Bahia, porém, não foi suficiente para levar adiante a agenda da abolição da escravidão, muito discutida em Salvador por africanos escravizados, homens e mulheres negras livres e outros segmentos liberais da população.

A historiadora Ynaê Lopes dos Santos acredita que a perspectiva de abolição na época ajudou a tornar popular a resistência baiana. “Muitos abraçaram a independência brasileira como sua causa, sem ter a percepção, que ainda estava em discussão, do que viria pela frente”, afirma Ynaê. Donos de engenho e parte da elite baiana barraram qualquer discussão e o fim da escravidão só viria 66 anos depois.

Fonte: Agência Bonifácio


Seu apoio é importante, tornando-se um assinante você está contribuindo para o crescimento do bom jornalismo e ajudará a salvaguardar nossas liberdades e democracia para as gerações futuras. Obrigado pelo apoio! Duna Press Jornal e Magazine, mídia livre e independente trabalhando a informação com ética e respeito ao leitor. Notícias, oportunidades e negócios, seu portal nórdico em português.

Assinatura Anual
Assinatura Anual

Print Friendly, PDF & Email

Wesley Lima

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre atualidades culturais, sócio-políticas e econômicas da região.
Botão Voltar ao topo
Translate »