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História

Hipólito José da Costa, o primeiro jornalista tupiniquim

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Pense rápido: qual foi o primeiro jornal do Brasil? E, em consequência, qual o primeiro jornalista tupiniquim? Alguns podem possuir a resposta na ponta da língua, mas há que contextualizá-la. Oficialmente, o primeiro jornal a ser publicado por cá, ainda em tempos coloniais, foi a Gazeta do Rio de Janeiro, lançada na capital a 10 de setembro de 1808, como órgão oficial do governo português durante o reinado de Dom João VI, então recém chegado ao Brasil, editada primeiro pelo frei Tibúrcio José da Rocha e, depois, pelo primeiro jornalista considerado profissional do Brasil, Manuel Ferreira de Araújo Guimarães. Esse jornal foi, curiosamente, o precursor do atual Diário Oficial da União, depois de muitas idas e vindas. Mas, apesar de oficial, na prática, foi apenas o segundo jornal da história da imprensa brasileira. Foi sim, sejamos justos, o primeiro a ser redigido e publicado em solo brasileiro, legalmente, pela Impressão Régia, com máquinas trazidas da Inglaterra – porém, não tinha liberdades críticas. Então, qual foi o periódico pioneiro desta terra brasilis? Ora, o garboso Correio Braziliense, editado por certo Hippolyto Joseph da Costa Pereira Furtado de Mendonça, apenas Hipólito José da Costa para os íntimos, e lançado apenas três meses antes da Gazeta do Rio de Janeiro. Ocorre que Hipólito era um petardo, daqueles que a coroa julgava melhor estar no exílio – do contrário, preso. Mas sua história é perfilada por apetitosas contradições. Foi assim, de acordo com a cabeça de seu redator, que o Correio Braziliense surgiu: em postura liberal, progressista e incendiária, contrária ao que coroa lusitana instalada no Rio de Janeiro tinha de mais arcaico, e totalmente redigido e editado em Londres, em estilo claro e convicto. Chegava a diletos leitores brasileiros, portanto, no sapatinho, por contrabando. Até a década de 1820, quando já estávamos às portas da Independência, apenas publicações da Impressão Régia e de poucos impressores ligados ao poder tinham licença para circular no Brasil. Mas mesmo seus inimigos davam a devida importância a seus escritos. Até que se chegasse ao Grito do Ipiranga, o Correio Braziliense de Hipólito fizera o suficiente para se firmar como engrenagem forte e azeitada na queda do absolutismo e na propagação das liberdades e instituições civis cá nesta América do Sul.

Quando se firmou como o pai do Correio Braziliense, o primeiro jornal brasileiro a, ao menos em teoria, exercer o que entendemos hoje como jornalismo crítico, Hipólito José da Costa tinha, há muito, suas conexões. Nascido em 13 de agosto de 1774 na Colônia de Sacramento, um enclave às margens do rio da Prata pertencente à capitania portuguesa de São Pedro do Rio Grande do Sul, mas num território hoje pertencente ao Uruguai, o pai da imprensa brazuca vinha de uma abastada família carioca: era filho de Félix da Costa Furtado de Mendonça, alferes de ordenanças da Capitania do Rio de Janeiro, e Ana Josefa Pereira, uma donzela de Sacramento. Quando a terra natal de sua mãe foi devolvida à coroa espanhola, em 1777, a família se mudou para Pelotas, no atual Rio Grande do Sul. O rebento passou a estudar em Porto Alegre, partindo em seguida para Coimbra, em Portugal, onde concluiu formação nos, digamos, perigosos saberes de filosofia e leis.

Com sua bela e revolta cabeleira, secundada por longas e pulquérrimas suíças, sem contar certo ímpeto gauchesco, o futuro parecia sorrir com dentes de ouro ao jovem Hipólito: virou logo diplomata da coroa Portuguesa. Aí houve QI. Era um protegido de Rodrigo de Sousa Coutinho, ministro da Marinha e dos Negócios de Ultramar, que futuramente seria conhecido como conde de Linhares. Em 1798, apenas três meses após sua formatura, recém promovido a diplomata, Hipólito foi enviado à América do Norte, para estudar de perto o cultivo de plantas úteis ao clima dos trópicos, a mineração, a economia e os avanços técnicos da indústria nos Estados Unidos e no México, exemplos a serem seguidos pela administração lusa em sua robusta colônia ao sul. Mas no México o protagonista desta história sequer pisou: ficou sem receber os recursos esperados de Lisboa, sobrevivendo de empréstimos sem conseguir deixar os EUA. O Reino de Portugal, afinal, receberia o troco: foi por aquelas bandas americanas, mais precisamente em Filadélfia, que Hipólito virou maçom. E aí sua vida passou a ter novos contornos, novas influências: as liberdades democráticas, em especial a de expressão e a de livre associação, o encantaram. Que estranho bicho era esse? O liberalismo, que inspirara tanto a maçonaria, naquele momento, quanto a constituição dos Estados Unidos. E que batia de frente com o arcaico pensamento então dominante nas monarquias ibéricas, sob pesada nuvem absolutista. Um pavio se acendia.

Depois de cerca de dois anos na América do Norte, Hipólito voltou para casa, ao fim de 1800. Em Lisboa travou contato com círculos democráticos locais, participando da ilustrada tipografia e editora do Arco do Cego, ainda contando com os favores de Sousa Coutinho. Em seguida, foi nomeado diretor da Impressão Régia, quando esta encampou o Arco do Cego, até então um raro respiro de esclarecimento no atrasado Portugal daquela virada de século. Em nova função, então, partiu para Londres, em 1802, a mando de seu influente padrinho político, com o objetivo, dizem, de comprar maquinário para a imprensa da coroa, bem como obras para a Real Biblioteca – ora, ora, a mesma que daria origem, poucos anos depois, à Biblioteca Nacional do Brasil. No entanto, nesse ponto da história Hipólito nos pica um olho, fazendo o famoso shhh dos bibliotecários: em sua viagem também serviu de emissário da maçonaria lusitana, visando estreitar contato as com lojas maçônicas de uma Inglaterra ainda pré-vitoriana. Ali, conheceu figuraços como Simón Bolívar e Francisco de Miranda, sul-americanos como ele, que pouco mais tarde se notabilizariam como libertadores de boa parte da América espanhola. Mas, em Lisboa, o magistrado portuga Diogo Inácio de Pina Manique, notório e fanático linha dura, não era bobo: jogou a Inquisição para cima de Hipólito poucos dias após a volta de nosso heroi para Portugal. A acusação, afinal, fazia sentido: disseminar ideias maçônicas na Europa. Não pela maçonaria, em si, mas pelo que ela representava, no contexto da época: democracia, em geral, incomoda. O restante do pavio queimaria numa cela do Tribunal do Santo Ofício.

Dois anos no cárcere minaram a saúde do pai da imprensa brasileira – que só saiu de lá na marra. A maçonaria, como naqueles filmes de suspense que nos deixam com a pulga atrás da orelha, tinha lá seus recursos. Com a ajuda de seus companheiros, Hipólito José da Costa conseguiu escapar ao xilindró disfarçado de criado, em 1805, numa manobra digna de Tom Cruise, figura razoavelmente apta para as devidas adaptações cinematográficas em questão. Seguiu discretamente, de bico calado, até a Espanha, onde ainda não estava totalmente a salvo, partindo em seguida para o Reino Unido, novamente. Lá, suas conexões, estabelecidas em sua visita anterior ao país, o mantinham praticamente intocado. Conseguiu se exilar protegido por um novo pistolão, um membro da realeza inglesa: o duque de Sussex, ou seja, o príncipe Augusto Frederico, um desses problemáticos porém carismáticos sujeitos da monarquia britânica que, por estar numa posição desfavorável na linha sucessória da coroa – era apenas o nono dos 15 filhos do rei Jorge III –, achou melhor fazer algo diferente na vida, abdicando de carreira militar, decidindo se tornar maçom, sendo popular por conta de uma boa dose de rebeldia e causando, enfim, desconforto nos enfadonhos almoços dominicais de sua sisuda família.

Dinheiros suficientes Hipólito tinha, assim que chegou à Inglaterra: contou com o patrocínio do duque de Sussex e de outros maçons, sobrevivendo dando aulas e fazendo traduções. Mais tarde chegou a adquirir ações do Banco da Escócia, num contexto em que possuía o status de estrangeiro legalmente residente no país, com alguns direitos políticos. Mas seus deveres para com o liberalismo, a democracia e a maçonaria não sossegaram. Nem sua preocupação com o rincão natal, nos trópicos americanos. E foi aí que articulou, em segurança, a produção do Correio Braziliense, ou Armazém Literário, conforme subtítulo – afinal, o jornal pioneiro do Brasil era assim, meio político, meio literário, com variedades e valiosos pitacos comerciais, outra especialidade de seu editor, aqui e ali. Circulava na Inglaterra, lido por comerciantes locais interessados em negócios com Portugal e, com maior interesse, pela elite no Brasil, para quem fornecia com exclusividade informações sem o filtro da censura real lusitana sobre o exterior.

O Correio Braziliense era um excelente jornal, para os padrões do momento – tanto que, hoje, historiadores brasileiros o consideram brasileiro, enquanto historiadores portugueses o consideram português: não existem indícios de que uma sardinha assim pode ser dividida. O fato é que foi o mais influente jornal em português da história a ser editado na Inglaterra. Vinha sempre dividido em quatro seções: a de Política, a principal e de maior notabilidade, muitas vezes com a publicação de comunicados e documentos oficiais na íntegra; a de Comércio e Artes; a de Literatura e Ciências; e a de Miscelânea, que é um aquele nome usado para designar sem desleixo qualquer coisa e de tudo um pouco, conforme a conveniência – nessa seção, que aliás não deve ser subestimada, vinham as “Reflexões sobre as novidades do mês”, recheadas de comentários e opiniões sobre os acontecimentos mais quentes do momento, bem como a correspondência de leitores. Sempre espezinhando a coroa portuguesa, o periódico acabou circulando de junho de 1808 a dezembro de 1822, entre outros afazeres de seu editor, sobretudo de intermediação comercial, algo que lhe rendeu tranquilidade material. A precisão de tais datas às vezes é falha, mas, a rigor, o jornal foi impresso primeiro por W. Lewis, em Paternoster Row, na City de Londres, sendo depois tirado em St. John’s Square, em Clerkenwell, em oficina do próprio Correio Braziliense, em fase que durou de janeiro de 1812 a dezembro de 1816 – por fim, foi ainda impresso por L. Thompson, ainda em oficina particular, mas localizada em Great St. Helens, na Bishopsgate Street, entre janeiro de 1817 e dezembro de 1822. Ao todo, teve 175 edições de pequeno formato (14 x 22 cm), posteriormente organizadas em 29 volumes, e número de páginas que variava entre cem e 150.

Há que contextualizar o início da empreitada do Correio Braziliense. Em 1807, Napoleão Bonaparte ordenou a invasão de Portugal. Com a entrada do exército francês em terras lusas, e o consequente caos na administração pública, coroado com a escapulida da família real da metrópole para o Brasil, a imprensa portuguesa viu a oportunidade de sofrer menos com a censura: passou mesmo a ter um curto período de liberdade e dinamismo. Foram lançados inúmeros diários de saudável voz crítica, contrários aos modorrentos jornais do status quo. Na verdade as autoridades até gostavam desse ímpeto combativo, desde que voltado ao invasor francês. Mas, quando Napoleão caiu fora de Portugal, em 1813, a censura voltou pesada. Vários jornalistas portugueses de oposição buscaram a liberdade de expressão e livre pensamento em Londres e, ironicamente, Paris, fundando publicações em geral de linha libertária, estas rigorosamente lidas pela elite brasileira. Basicamente, essas folhas combatiam a retrógrada monarquia absoluta em diversos tópicos, defendendo aquilo que hoje parece óbvio para o bom andamento da democracia: a instauração de um regime baseado numa Constituição. O primeiro e mais influente desses jornais foi o Correio Braziliense de Hipólito. Para início de conversa, era oficialmente proibido de entrar no Brasil e em Portugal. Mas ainda assim entrava, sem grandes pudores. Além de ter até assinantes em ambos os países, era lido na Corte ao ponto de estar, curiosamente, disponível em bibliotecas públicas em diversos pontos da vasta colônia – era um jornal incômodo, de circulação restrita e dificultada em vários aspectos, mas, ironicamente, importante tanto para opositores da coroa quanto para a mesma. Matías M. Molina, no livro “História dos jornais no Brasil – da era colonial à Regência”, afirma mesmo que um dos seus leitores mais assíduos era o príncipe regente Dom João. Ora, o jornal era a principal fonte de informações sobre a Europa no Brasil, e sobre o Brasil na Europa. E também uma tremenda fonte de renda, não só para Hipólito José da Costa. Molina ainda é taxativo ao dizer que “é possível que a Corte fosse mais bem informada de muitos acontecimentos da Europa pelo jornal de Hipólito José da Costa do que pelas suas embaixadas”.

A edição nº 1 do semilegal Correio Braziliense chegou ao Brasil em outubro de 1808, através do representante comercial Jorge João Dodsworth, um leiloeiro baseado na rua da Alfândega. A chegada da folha era alardeada, toda vez que o navio procedente de Liverpool chegava, com seus exemplares. Manuel Bernardes da Veiga também distribuiu o Correio pela colônia, mas sua atuação, dizem, não foi das melhores. Havia muito dinheiro e muitos riscos, na empreitada. O jornal custava, no Rio, quase um braço do leitor: 1.280 réis, soma elevada tanto pelo deslocamento quanto pela compra de informações exclusivas e variadas, de primeira mão. Na Bahia era mais barato: “só” 800 ou 900 réis. A chegada do Correio Braziliense, obviamente, era irregular, por inúmeras razões, mas, afinal, a César o que é de César: para a elite, valia a pena. O leitor conservador médio podia se escandalizar com a faceta ideológica da parte política do periódico, e ainda assim consumi-lo por conta de seus preciosos informes de teor comercial.

Toda essa complexidade tinha seu preço. É bem verdade que, afinal, o Correio Braziliense também causou muita dor de cabeça para as Cortes de Lisboa. Estas financiavam vários escribas, encarregando-os de escrever panfletos contra Hipólito e seu jornal, além de empreender ou facilitar o lançamento de periódicos e publicações avulsas de defesa à coroa, estampados pela Impressão Régia. Tudo porque, sim, Hipólito foi o publicista mais influente do Brasil no pré Independência, contribuindo fortemente para a formação da consciência política da elite e da identidade social nacionais. Lembrado no livro supracitado de Matías Molina, Affonso Arinos de Mello Franco bem dizia: “ainda hoje ficamos admirados com a precisão do julgamento de Hipólito”. Existem indícios de que em 1812 houve mesmo um acordo firmado entre o editor e a coroa lusa, onde esta adquiriria parte da tiragem do jornal em troca de moderação na redação de seus explosivos artigos – ao menos aqueles da seção política. Mas os efeitos de tal acordo sempre foram nebulosos: na prática, Hipólito deitou e rolou. Assim como na alta sociedade inglesa. Em âmbito particular, mais ou menos nessa época, em 1817, nosso herói teve tempo suficiente para contrair bodas com Mary Ann Troughton, filha de um funcionário da alfândega inglesa que passou a ser da Costa: juntos, os pombinhos tiveram três pimpolhos – mas cumpre destacar que outra Mary Ann, de sobrenome Lyons ou Symons, possivelmente filha de W. Lewis, dono da tipografia que imprimia o Correio, já tinha um filho com nosso pioneiro da imprensa, um rabo de saia, afinal.

No âmbito público, nos primeiros anos do Correio Braziliense, particularmente, Hipólito despertava a ira do conde de Funchal e embaixador lusitano em Londres, Bernardo José de Abrantes e Castro, que passara a editar, por aquelas bandas, e fazendo circular com firmeza por Portugal, o Investigador Portuguez em Inglaterra, a partir de 1819: um jornal exclusivamente dedicado a minar o indigesto Correio Braziliense. Este, afinal, era uma pedra no sapato da realeza portuguesa (e de outras também, por tabela) ao defender teses liberais, à época consideradas revolucionárias, clamando pela emancipação brasileira do reino de Portugal em diversos aspectos, por exemplo. Ao menos de início Hipólito não julgava a independência total da colônia uma boa ideia, mas conclamava o povo a participar do poder, abertamente. Foi contra a escravidão muito antes de sua abolição: uma colônia, afinal, jamais se tornaria livre do que sua metrópole tinha de despotismo se, de fato, o regime escravocrata se mantivesse. Foi ainda contra o uso do Exército nas questões internas do país, temendo o uso da força em suas resoluções e defendendo a subordinação dos militares ao poder civil – evocando a um dilema até hoje não resolvido mesmo em avançadas democracias ocidentais, entre reflexões sobre direitos e deveres em face ao Estado policial. Preocupava-se com a articulação entre democracia e progresso material da nação, voltado que era a questões econômicas e industriais. Defendia a imigração de cidadãos livres para compor a força de trabalho – ideia que apenas no Segundo Reinado seria colocada em prática, ainda que com restrições. Além disso, à frente de seu tempo (e também do nosso), Hipólito pregava a favor da liberdade de culto. Mais pontualmente, de acordo com os ventos políticos do momento, condenava com firmeza um tratado entre Portugal e França, assinado pela pena do conde de Funchal, onde a coroa lusa literalmente abria mão da atual Guiana Francesa sem qualquer contrapartida. De início Hipólito aplaudia mesmo a Revolução Pernambucana de 1817, criticando-a logo em seguida: também não era tão incendiário assim, posando mais como reformista monárquico. O redator sustentava em seu jornal mesmo a doida ideia de José Bonifácio de Andrada de mudar a capital brasileira para longe do mar, no coração do país – alô, Brasília, foi Hipólito quem criou seu nome! No mais, cumpre dizer que o Correio Braziliense apresentava e discutia com o devido brilho a vultuosa Revolução Liberal do Porto, que, em 1820, passou a influenciar qualquer liberal ibérico e latinoamericano. Pudera. Sabe-se que a insurreição ocorrida no Porto desenrolou certos acontecimentos no Brasil, ao sabor dos tempos: pressionado pela crise instaurada, Dom João VI teve que regressar a Portugal no ano seguinte, deixando cá nos trópicos seu filho, o príncipe Pedro de Alcântara. Grandes mudanças estavam por vir.

Como não poderia deixar de ser, o Correio Braziliense cobriu com intensidade os desdobramentos que, entre 1821 e 1822 culminaram na Independência do Brasil, com o até então príncipe Pedro de Alcântara assumindo o trono como monarca constitucional – embora, na prática, não fosse assim tão dado a rigores constitucionais, afinal. Aí reside uma questão chave: embora defendesse a autonomia brasileira, Hipólito José da Costa era, inicialmente, a favor da manutenção da ligação entre a antiga colônia e Portugal, numa relação que via como sendo de ganha-ganha. Trabalhava para que o povo brasileiro fosse mais instruído, mas, afinal, não o julgava pronto o suficiente para estar à frente de uma nação independente. Entretanto, o andar da carruagem ditou a palavra do jornalista: frente à decisão truculenta de Portugal de mandar tropas para tentar manter o controle sobre o Brasil, Hipólito reconsiderou. E lavou as mãos, no debate público. O episódio minou a coesão dos comerciantes portugueses em Londres, interessados no controle do Brasil pela força porque interessados em recobrar o monopólio do comércio do Brasil. O campeão do Correio Braziliense detestava a ideia. Pelo sim pelo não, para ele, o importante era a manutenção de uma monarquia constitucional que seguisse o modelo da Constituição dos Estados Unidos, com a existência de duas Câmaras no Parlamento. Sentiu que isso seria possível através do rompimento entre Brasil e Portugal.

É bem verdade que, no processo da Independência, afinal, a situação da imprensa brasileira mudou radicalmente. E para melhor: ao menos temporariamente acabava a censura nos moldes antigos, com a Impressão Régia passando a enfrentar a concorrência de novas tipografias, que entravam aos poucos no país. Jornais doutrinários de todos os quilates surgiam, extremamente combativos, acabando tanto com o monopólio da Gazeta do Rio de Janeiro quanto com a necessidade da caríssima importação de uma folha como o Correio Braziliense, produzida com propriedade, mas no exterior. Assim, o Correio dizia adeus à publicação, com certo sentimento de dever cumprido, no entanto.

Pedro de Alcântara, elevado a Dom Pedro I, o primeiro imperador do recém nascido Império do Brasil, soube apreciar os esforços de Hipólito José da Costa, que chegou a fazer parte da missão diplomática da nova nação na Inglaterra. O nomeou cônsul geral brasileiro em Londres – cargo que só ele, de fato, poderia desempenhar com destreza. Mas Hipólito sequer chegou a saber do novo posto: com saúde frágil, morreu prematuramente, em 11 de setembro de 1823, aos 49 anos, nove dias antes de sua nomeação. Talvez tivesse partido no momento certo, evitando futuras decepções: mais tarde Pedro I também assumiria rasgos absolutistas – mas isso é outra história. Na política, seu irmão, José Saturnino da Costa Pereira, levaria o nome da família adiante, como senador. Sepultado desde o século XIX em St. Mary the Virgin, na cidade de Hurley, no condado de Berkshire, nosso heroi virou o patrono da cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras. Ganhou um museu em homenagem em Porto Alegre, que só poderia ser o Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. Até que em 2001 seus restos mortais vieram parar em Brasília: respeitosamente, transladados aos Jardins do Museu da Imprensa Nacional. Assombrando eventuais déspotas de plantão na capital, supõe-se.

Embora o historiador Nelson Werneck Sodré tenha sido um crítico de Hipólito José da Costa, afirmando que a linha ideológica impressa no Correio Braziliense fizesse jogo para lá de conveniente para a burguesia inglesa, Antonio Candido tratou o primeiro jornal da imprensa brasileira como “o maior documento da nossa ilustração e o mais agudo comentário à política joanina”. Francisco Adolpho de Varnhagen, visconde de Porto Seguro, foi além: disse que “nenhum outro estadista concorresse mais para a formação no Brasil de um império constitucional, do que o ilustre redator do Correio Braziliense”. E mais: que “Talvez nunca o Brasil tirou da imprensa mais benefícios do que lhes foram oferecidos nessa publicação em que o escritor se expressava com tanta liberdade como hoje o poderia fazer; mas com a grande vantagem de tratar sem paixão as questões da maior importância para o Estado”. Por fim, lascou essa: “Fez à independência do Brasil mais serviços do que [Benjamin] Franklin à dos Estados Unidos”.

Explore os documentos:

http://memoria.bn.br/DocReader/700142/1

http://memoria.bn.br/DocReader/700142x/21399

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/177504

http://memoria.bn.br/DocReader/004120/177505

Fonte: http://bndigital.bn.gov.br/artigos

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Joice Maria

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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