fbpx
BicentenárioHistória

Diário de uma viagem ao Brasil, de Maria Graham 

Compartilhar

Dos ingleses que visitaram o Brasil durante o século XIX, que conviveram com seus habitantes e deles observaram hábitos e estilos de vida, e de modo especial os pequenos fatos e ocorrências cotidianas, merece particular menção a intelectual britânica Maria Graham (1785-1842). Suas experiências críticas como viajante-investigadora no Brasil, constam no “Diário de uma viagem ao Brasil”, em que comenta as três vezes que esteve por aqui, visitando Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, entre 1821 e 1823, a princípio acompanhando seu marido, o capitão da marinha inglesa Thomas Graham, e depois da sua morte no Chile, viajando sozinha. Foi exatamente à época da independência do Brasil, momento conturbado de nossa história, que a escritora aqui chega pela primeira vez, mais precisamente no dia 21 de setembro de 1821, quando a fragata Dóris aporta na cidade do Recife.

Em seus diários de viagem, ela sabia fisgar seus leitores com uma incrível diversidade de assuntos, falando desde sobre seu foro íntimo e aquilo que percebia durante seus percursos, até sobre coisas mais distantes, como todos os processos históricos e políticos que envolviam os lugares por onde passava. Por isso mesmo, suas anotações contêm narrativas e informações interessantes sobre situações políticas a qual presenciou, sobre contatos que manteve e sobre lugares visitados.

Maria Graham não era uma viajante qualquer. Quando chegou ao Brasil, em 1821, já conhecia boa parte do mundo tropical e a Península Ibérica. Da mesma forma, já havia realizado a clássica viagem que os ingleses gostavam de realizar à Itália. Chegando aqui, exatamente um ano antes da Independência, foi testemunha dos primeiros sinais de nossa emancipação política – ao sair de Pernambuco, em outubro de 1821, manifesta “a firme convicção de que pelo menos esta parte do Brasil nunca mais se submeterá ao jugo de Portugal” e compartilhou, no Rio de Janeiro, da lua de mel do Imperador com o povo brasileiro. (Cf. http://memoria.bn.br/DocReader/098116x/27)

No ano de 1823, estando ainda na capital federal, chegou a visitar a Biblioteca Nacional, na época Biblioteca Real e Pública. Assim se referiu à nossa Biblioteca:

“…a Biblioteca Real de 70.000 volumes, em que todos os dias, salvo os feriados, o público tem ingresso para estudo, de nove até uma hora da tarde, e das quatro horas até o pôr-do-sol (…).” “Fui hoje à Biblioteca…para indagar acerca de alguns livros e fui convidada à frequentá-la e usar do que quiser ali. Os bibliotecários são todos extremamente polidos e a biblioteca está aberta a todas as pessoas por seis horas diárias” (…) “…tanto ontem quanto hoje fui à biblioteca, onde um pequeno gabinete agradável e fresco me foi destinado; qualquer livro que peço me é ali trazido, e ali tenho pena, tinta e papel à mão para tomar notas. Isto é uma gentileza e uma atenção a uma mulher, e estrangeira para a qual não estava preparada.” (Cf. http://memoria.bn.br/DocReader/393541/10977)

Em 21 de outubro de 1823, embarcou de volta à Inglaterra. Todavia, em 1824, a convite de D. Pedro I e da imperatriz Leopoldina, ela retornou ao Brasil para ser a educadora da princesa Maria da Glória. Como preceptora na casa imperial do Brasil, viveu algum tempo no Palácio de São Cristóvão, e permaneceu lá por pouco mais de um mês (de 5 de setembro a 10 de outubro de 1824). O volume 60 dos Anais da Biblioteca Nacional publicou documentos que trazem informações sobre as dificuldades que Maria Graham encontrou na sua função de preceptora da princesa Maria da Glória, que veio a ser Rainha de Portugal. (Cf. http://memoria.bn.br/DocReader/402630/12588)

Desta experiência, resultou o “Escorço biográfico de Dom Pedro I”. O historiador Américo Jacobina Lacombe (1909-1993) foi o tradutor desta obra e da correspondência entre Maria Graham e a imperatriz dona Leopoldina, incluída num dos volumes da Biblioteca Nacional (Cf. https://www.bn.gov.br/producao/publicacoes/escorco-biografico-dom-pedro-i)

No caso específico do Escorço biográfico de Dom Pedro I, escrito em Londres quando D. Pedro já havia morrido e Maria Graham passara a se chamar lady Callcott, por ter se casado em segundas núpcias com o pintor inglês sir Augustus Callcott, há ainda uma razão especial para sua republicação pela BN. Os originais em inglês desse texto foram comprados na Inglaterra por Rodolfo Garcia, então diretor da Biblioteca Nacional, em 1938, e neste mesmo ano traduzidos por Lacombe e publicados nos Anais da Biblioteca Nacional, v. 60, com introdução e notas do próprio Rodolfo Garcia. (Cf. http://memoria.bn.br/DocReader/402630/12588)

Cabe lembrar que foi por diligência de Erich Eichner, da Livraria Kosmos, tradicional livraria do Rio de Janeiro, fundada em 1935 por imigrantes austríacos, que a Biblioteca Nacional adquiriu, do Sr. Walter T. Spencer, livreiro-antiquário de Londres, uma parte do espólio literário e artístico de Maria Graham, constante da correspondência epistolar entre ela e a Imperatriz Leopoldina e outros mais; de um escorço biográfico de D. Pedro I, e de sessenta e uma pequenas aquarelas de sua autoria, representando aspectos, tipos e costumes do Brasil, que podem ser consultadas em nosso acervo digital.

Maria Graham acabou permanecendo no Rio de Janeiro até setembro de 1825. Em 10 de setembro de 1825 deixou, definitivamente, o Brasil. No entanto, manteve vínculo com o país, através da intensa correspondência com a imperatriz, até a morte desta, em 11 de dezembro de 1826.

Recentemente, a Fundação Biblioteca Nacional dedicou uma Live da série “200 da Independência” inteiramente a ela. (Cf. https://www.youtube.com/watch?v=SFP0CAEUcT4). O episódio contou com a participação de Denise Porto, autora do livro “Maria Graham, uma inglesa na Independência do Brasil”, que procura destacar as análises da escritora sobre a realidade política e social brasileira em função de sua passagem pelo Brasil (Cf. https://www.bn.gov.br/acontece/noticias/2021/01/200-independencia-uma-inglesa-independencia-brasil) e com a participação da historiadora Mary del Priore, que falará de Maria Graham através de seu próximo livro: “O senhor dos mares, a viajante inglesa e o imperador”, a sair no Centenário de 2022. O livro tratará do encontro dos três personagens históricos no momento crepitante da Independência e acompanha o choque, tensões e desentendimentos de culturas e gênero tendo como pano de fundo o Rio de Janeiro da corte imperial, a Bahia da guerra civil e o Maranhão.

Explore os documentos:

Carta de Falcão a Augusto Meyer pedindo-lhe que demovesse Rodolfo Garcia dos receios de publicar o Diário de Maria Graham [Manuscrito], 21 mar. 1943.

Carta de Maria Graham (Lady Callcott) para a Imperatriz Leopoldina enviando um exemplar do livro Diário de uma residência na Índia e expondo projeto para educar as princesas [Manuscrito], ano 18- -.

Carta de Dona Leopoldina, consorte de Pedro I, Imperador do Brasil, para Maria Callcott comentando seu livro e oferecendo mais tempo para esta retornar ao Brasil [Manuscrito], 10 maio 1824.

Carta de Dona Leopoldina para Maria Callcott lamentando sua demissão [Manuscrito], 14 out. 1824.

Carta de Dona Leopoldina para Maria Callcott reafirmando sua amizade por ela e ainda, dificuldades na convivência com algumas pessoas da corte [Manuscrito], 06 nov. 1824.

Lady Maria Callcott, Journal of a voyage to Brazil, and residence there, during part of the years 1821, 1822, 1823 [Livro]

Fonte: http://bndigital.bn.gov.br/artigos

Ver também:

Conheça como funciona o trabalho de uma OSCIP que resgata animais em situação de risco e abandono.

Como estabelecer metas de estudos.

 A educação de alta qualidade já está ao alcance de todos e em qualquer lugar.

Print Friendly, PDF & Email

Joice Maria

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
Botão Voltar ao topo
Translate »