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História

O Tamoyo, jornal andradino

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Também bicentenária, certa imprensa foi intrínseca ao processo de Independência do Brasil, no século XIX. O periódico O Tamoyo, lançado no Rio de Janeiro (RJ) em 12 de agosto de 1823, foi um exemplo e tanto nesse sentido. Fundado pelo estadista José Bonifácio de Andrada e Silva assim que acabou afastado do cargo de ministro do Reino e dos negócios estrangeiros, o jornal tinha função de defender a figura de seu dono, bem como de sustentar seu irmão, o também político Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva, e demais figuras ligadas à dupla. Os redatores, entretanto, não eram os Andrada, mas dois amigos de José Bonifácio: Vasconcelos Drumond e França Miranda. Dado o complexo e turbulento contexto político que deu início ao Primeiro Reinado, o órgão impresso era mais do que necessário aos Andradas, sobretudo pelos ataques que recebiam do articulista português João Soares Lisboa, o redator do Correio do Rio de Janeiro.

O Tamoyo, devido à sua inserção nas disputas políticas do Império, não deixou de ter certa carga contraditória, ao sabor de seu tempo. Até seu desligamento do governo, José Bonifácio era ligado a Dom Pedro I, tendo mesmo, através da chamada “bonifácia”, liquidado a imprensa liberal que denunciava o despotismo do monarca, em outubro de 1822. Ainda assim, a meados de 1823 Dom Pedro o havia demitido após um entrave entre o ministro e o padre e deputado Francisco Muniz Tavares, a respeito de um projeto que estipulava a deportação dos portugueses no Brasil, que não vingou – oficialmente, no entanto, o afastamento se deu por uma questão menor, inscrita na política regional paulista. O Tamoyo, lançado logo em seguida, marcou a entrada dos Andradas na oposição ao governo, embora em seu jornal a figura do imperador fosse poupada. Ademais, e apesar da repressão violenta a impressos de oposição, o periódico era dotado de contornos liberais. Hoje, no fim das contas, serve como um documento de relevância para a compreensão do projeto andradino.

O historiador Nelson Werneck Sodré, em sua “História da imprensa no Brasil”, caracteriza a situação peculiar em que O Tamoyo se encontrava:

No dia 16 de julho [de 1823], caía o ministério presidido por José Bonifácio. Os Andradas e seus amigos, que haviam arrasado a imprensa liberal, colocavam-se agora em oposição. Para isso, além da tribuna parlamentar, disporiam de um jornal, O Tamoio (…). Era pequeno jornal do tipo doutrinário, de 4 páginas, a maior parte do espaço ocupado por um só artigo, de comentário dos acontecimentos mais recentes, mas tão somente políticos. (…) Fazia (…) um tipo de oposição que encontrava a mais ampla receptividade, pelas condições do tempo, pois assentava no puro jacobinismo, atacando os portugueses em linguagem desabrida. (…) Ainda que nele não fosse direta a responsabilidade de José Bonifácio, dele era a inspiração do jornal e, possivelmente, parte de sua matéria. De qualquer forma, a orientação refletia o pensamento político andradista e resultava do impasse a que fora levada a conduta pública de José Bonifácio, em consequência de suas contradições. (p. 77).

A receptividade do público a’O Tamoyo refletiu sobre a sua periodicidade. Impresso nos prelos da oficina de Silva Porto & Cia., o jornal vinha a lume uma vez por semana, inicialmente, às terças-feiras. No entanto, talvez por angariar bom número de leitores, passou a sair também às sextas-feiras, e, por fim, era publicado às terças, quintas e sábados. De resto, Werneck Sodré cita ainda uma introdução à edição fac-similar que O Tamoyo teve em 1944, assinada por Caio Prado Júnior. Nas palavras deste, nada amenas, já o título do periódico, “o nome de uma nação indígena”, indicava hostilidade aos colonizadores. Além disso, e por outro lado, nas palavras do intelectual paulistano, o jornal teria sido

(…) um ataque indiscriminado e incoerente, cheio dos mais absurdos exageros. José Bonifácio, refletido por seus amigos no Tamoio tomara-se de um ódio que se pode dizer pessoal aos portugueses. Tocará, com isso, uma fibra muito sensível da opinião popular. Mas nada mais: não era possível construir sobre tal base puramente emotiva uma política eficiente e construtiva. À oposição revolucionária dos democratas contra os privilégios econômicos e sociais de que os portugueses eram os principais titulares (mas não os únicos), o Tamoio substituirá uma oposição estéril aos indivíduos nascidos no Reino. Conseguirá com isto mobilizar a opinião brasileira – no que será aliás ajudado por outro periódico de igual feição mas muito mais violento, A Sentinela da Praia Grande, cujas relações com os Andradas não estão suficientemente apuradas. Mas será uma mobilização puramente demagógica que acabará por se desmoralizar (p. 77/78).

Deve-se considerar, ainda assim, que O Tamoyo foi contemporâneo ao golpe absolutista de Dom João VI em Portugal, ferindo a plenitude dos poderes estatais lusitanos e alimentando os interesses da metrópole na rearticulação com o Brasil. Com a Independência ameaçada, o tom da imprensa liberal subiu contra a incorporação de portugueses que haviam optado por permanecer na antiga colônia ao Exército brasileiro, bem como a nomeação de portugueses para cargos de confiança e quaisquer manobras de reaproximação entre Portugal e Brasil. Na Corte de Dom Pedro I, o ambiente era tenso: ministros portugueses de nascimento se demitiam e a instabilidade reinava. Como se não bastasse, a 11 de novembro de 1823 a Assembleia tinha ciência de que um golpe se armava contra ela. Visando a tranquilidade, o governo resolveu, na seção deste dia na Assembleia, investir contra a imprensa considerada “incendiária” – que era, no Rio de Janeiro, naquele momento, somente O Tamoyo e A Sentinela da Liberdade à Beira do Mar da Praia Grande, supracitada por Caio Prado Júnior. A dita imprensa liberal andradina foi, enfim, silenciada – O Tamoyo, precisamente, deixou de existir depois de sua edição de nº 35, datada de 11 de novembro daquele mesmo ano.

Posteriormente, é bom dizer, outros jornais circularam com o título de O Tamoyo – tanto no século XIX quanto no século XX, mais precisamente nos anos de 1851 e 1902. Mas já são outras histórias: nenhum desses outros periódicos possuía vínculos com a folha andradina.

Explore os documentos:

José Bonifácio, o patriarca da Independência:

http://objdigital.bn.br/objdigital2/acervo_digital/div_iconografia/icon1285547/icon1285547.jpg

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_iconografia/icon323485/icon323485.jpg

O Tamoyo

Fonte: http://bndigital.bn.gov.br/artigos/200-anos-da-independencia-o-tamoyo-um-empreendimento-andradino/

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Joice Maria

Colunista associado para o Brasil em Duna Press Jornal e Magazine, reportando os assuntos e informações sobre as atualidades sócio-políticas e econômicas da região.
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